Conto, Um Co de Lata ao Rabo, 1878

Um co de lata  ao rabo

Texto Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis, Vol. III

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em O Cruzeiro, 2 de abril
de 1878.

NDICE

CAPTULO
PRIMEIRO - ESTILO
ANTITTICO E ASMTICO

CAPTULO
II - ESTILO
AB OVO

CAPTULO
III - ESTILO LARGO E
CLSSICO

Era uma vez um mestre-escola,
residente em Chapu dUvas, que se lembrou de abrir entre os alunos um torneio
de composio e de estilo; idia til, que no somente afiou e desafiou as mais
diversas ambies literrias, como produziu pginas de verdadeiro e raro
merecimento.

 Meus rapazes, disse ele. Chegou
a ocasio de brilhar e mostrar que podem fazer alguma coisa. Abro o concurso, e
dou quinze dias aos concorrentes. No fim dos quinze dias, quero ter em minha
mo os trabalhos de todos; escolherei um jri para os examinar, comparar e
premiar.

 Mas o assunto? perguntaram os
rapazes batendo palmas de alegria.

 Podia dar-lhes um assunto
histrico; mas seria fcil, e eu quero experimentar a aptido de cada um.
Dou-lhes um assunto simples, aparentemente vulgar, mas profundamente
filosfico.

 Diga, diga.

 O assunto  este:  UM CO DE
LATA AO RABO. Quero v-los brilhar com opulncias de linguagem e atrevimentos
de idia. Rapazes,  obra! Claro  que cada um pode apreci-lo conforme o
entender.

O mestre-escola nomeou um jri, de
que eu fiz parte. Sete escritos foram submetidos ao nosso exame. Eram
geralmente bons; mas trs, sobretudo, mereceram a palma e encheram de pasmo o
jri e o mestre, tais eram  neste o arrojo do pensamento e a novidade do
estilo,  naquele a pureza da linguagem e a solenidade acadmica  naquele
outro a erudio rebuscada e tcnica,  tudo novidade, ao menos em Chapu
dUvas. Ns os
classificamos pela ordem do mrito e do estilo. Assim, temos:

1 Estilo antittico e asmtico.

2 Estilo ab ovo.

3 Estilo largo e clssico.

Para que o leitor fluminense
julgue por si mesmo de tais mritos, vou dar adiante os referidos trabalhos,
at agora inditos, mas j agora sujeitos ao apreo pblico.

CAPTULO PRIMEIRO

ESTILO ANTITTICO E ASMTICO

O co atirou-se com mpeto.
Fisicamente, o co tem ps, quatro; moralmente, tem asas, duas. Ps: ligeireza
na linha reta. Asas: ligeireza na linha ascensional. Duas foras, duas funes.
Espdua de anjo no dorso de uma locomotiva.

Um menino atara a lata ao rabo do
co. Que  rabo? Um prolongamento e um deslumbramento. Esse apndice, que 
carne,  tambm um claro. Di-lo a filosofia? No; di-lo a etimologia. Rabo,
rabino: duas idias e uma s raiz.

A etimologia  a chave do passado,
como a filosofia  a chave do futuro.

O co ia pela rua fora, a dar com
a lata nas pedras. A pedra faiscava, a lata retinia, o co voava. Ia como o
raio, como o vento, como a idia. Era a revoluo, que transtorna, o temporal
que derruba, o incndio que devora. O co devorava. Que devorava o co? O
espao. O espao  comida. O cu ps esse transparente manjar ao alcance dos
impetuosos. Quando uns jantam e outros jejuam; quando, em oposio s toalhas
da casa nobre, h os andrajos da casa do pobre; quando em cima as garrafas
choram lacrimachristi, e embaixo os olhos choram lgrimas de sangue,
Deus inventou um banquete para a alma. Chamou-lhe espao. Esse imenso azul, que
est entre a criatura e o criador,  o caldeiro dos grandes famintos.
Caldeiro azul: antinomia, unidade.

O co ia. A lata saltava como os
guizos do arlequim. De caminho envolveu-se nas pernas de um homem. O homem
parou; o co parou: pararam diante um do outro. Contemplao nica! Homo,
canis. Um parecia dizer:  Liberta-me! O outro parecia dizer: 
Afasta-te! Aps alguns instantes, recuaram ambos; o quadrpede deslaou-se do
bpede. Canis levou a sua lata; homo levou a sua vergonha.
Diviso equitativa. A vergonha  a lata ao rabo do carter.

Ento, ao longe, muito longe,
troou alguma coisa funesta e misteriosa. Era o vento, era o furaco que sacudia
as algemas do infinito e rugia como uma imensa pantera. Aps o rugido, o
movimento, o mpeto, a vertigem. O furaco vibrou, uivou, grunhiu. O mar calou
o seu tumulto, a terra calou a sua orquestra. O furaco vinha retorcendo as
rvores, essas torres da natureza, vinha abatendo as torres, essas rvores da
arte; e rolava tudo, e aturdia tudo, e ensurdecia tudo. A natureza parecia
atnita de si mesma. O condor, que  o colibri dos Andes, tremia de terror,
como o colibri, que  o condor das rosas. O furaco igualava o pncaro e a
base. Diante dele o mximo e o mnimo eram uma s coisa: nada. Alou o dedo e
apagou o sol. A poeira cercava-o todo; trazia poeira adiante, atrs, 
esquerda,  direita; poeira em cima, poeira embaixo. Era o redemoinho, a
convulso, o arrasamento.

O co, ao sentir o furaco,
estacou. O pequeno parecia desafiar o grande. O finito encarava o infinito, no
com pasmo, no com medo;  com desdm. Essa espera do co tinha alguma coisa de
sublime. H no co que espera uma expresso semelhante  tranqilidade do leo
ou  fixidez do deserto. Parando o co, parou a lata. O furaco viu de longe
esse inimigo quieto; achou-o sublime e desprezvel. Quem era ele para o
afrontar? A um quilmetro de distncia, o co investiu para o adversrio. Um e
outro entraram a devorar o espao, o tempo, a luz. O co levava a lata, o
furaco trazia a poeira. Entre eles, e em redor deles, a natureza ficaria
exttica, absorta, atnita.

Sbito grudaram-se. A poeira
redemoinhou, a lata retiniu com o fragor das armas de Aquiles. Co e furaco
envolveram-se um no outro; era a raiva, a ambio, a loucura, o desvario; eram
todas as foras, todas as doenas; era o azul, que dizia ao p: s baixo; era o
p, que dizia ao azul: s orgulhoso. Ouvia-se o rugir, o latir, o retinir; e
por cima de tudo isso, uma testemunha impassvel, o Destino; e por baixo de
tudo, uma testemunha risvel, o Homem.

As horas voavam como folhas num
temporal. O duelo prosseguia sem misericrdia nem interrupo. Tinha a
continuidade das grandes cleras. Tinha a persistncia das pequenas vaidades.
Quando o furaco abria as largas asas, o co arreganhava os dentes agudos. Arma
por arma; afronta por afronta; morte por morte. Um dente vale uma asa. A asa
buscava o pulmo para sufoc-lo; o dente buscava a asa para destru-la. Cada
uma dessas duas espadas implacveis trazia a morte na ponta.

De repente, ouviu-se um estouro,
um gemido, um grito de triunfo. A poeira subiu, o ar clareou, e o terreno do
duelo apareceu aos olhos do homem estupefato. O co devorara o furaco. O p
vencera o azul. O mnimo derrubara o mximo. Na fronte do vencedor havia uma
aurora; na do vencido negrejava uma sombra. Entre ambas jazia, intil, uma
coisa: a lata.

CAPTULO
II

ESTILO AB OVO

Um co saiu de lata ao rabo.
Vejamos primeiramente o que  o co, o barbante e a lata; e vejamos se 
possvel saber a origem do uso de pr uma lata ao rabo do co.

O co nasceu no sexto dia. Com
efeito, achamos no Gnesis, cap. I, v. 24 e 25, que, tendo criado na
vspera os peixes e as aves, Deus criou naqueles dias as bestas da terra e os
animais domsticos, entre os quais figura o de que ora trato.

No se pode dizer com acerto a
data do barbante e da lata. Sobre o primeiro, encontramos no xodo, cap.
XXVII, v. 1, estas palavras de Jeov: Fars dez cortinas de linho retorcido,
donde se pode inferir que j se torcia o linho, e por conseguinte se usava o
cordel. Da lata as indues so mais vagas. No mesmo livro do xodo,
cap. XXVII, v. 3, fala o profeta em caldeiras; mas logo adiante recomenda
que sejam de cobre. O que no  o nosso caso.

Seja como for, temos a existncia
do co, provada pelo Gnesis, e a do barbante citada com verossimilhana
no xodo. No havendo prova cabal da lata, podemos crer, sem absurdo,
que existe, visto o uso que dela fazemos.

Agora:  donde vem o uso de atar
uma lata ao rabo do co? Sobre este ponto a histria dos povos semticos  to
obscura como a dos povos arianos. O que se pode afianar  que os Hebreus no o
tiveram. Quando Davi (Reis, cap. V, v. 16) entrou na cidade a bailar
defronte da arca, Micol, a filha de Saul, que o viu, ficou fazendo m idia
dele, por motivo dessa expanso coreogrfica. Concluo que era um povo triste.
Dos Babilnios suponho a mesma coisa, e a mesma dos Cananeus, dos Jabuseus, dos
Amorreus, dos Filisteus, dos Fariseus, dos Heteus e dos Heveus.

Nem admira que esses povos
desconhecessem o uso de que se trata. As guerras que traziam no davam lugar 
criao o municpio, que  de data relativamente moderna; e o uso de atar a
lata ao co, h fundamento para crer que  contemporneo do municpio,
porquanto nada menos  que a primeira das liberdades municipais.

O municpio  o verdadeiro
alicerce da sociedade, do mesmo modo que a famlia o  do municpio. Sobre este
ponto esto de acordo os mestres da cincia. Da vem que as sociedades
remotssimas, se bem tivessem o elemento da famlia e o uso do co, no tinham
nem podiam ter o de atar a lata ao rabo desse digno companheiro do homem, por
isso que lhe faltava o municpio e as liberdades correlatas.

Na Ilada no h episdio
algum que mostre o uso da lata atada ao co. O mesmo direi dos Vedas, do
Popol-Vuh e dos livros de Confcio. Num hino  Varuna (Rig-Veda, cap. I
v. 2), fala-se em um cordel atado embaixo. Mas no sendo as palavras postas
na boca do co, e sim na do homem,  absolutamente impossvel ligar esse texto
ao uso moderno.

Que os meninos antigos brincavam,
e de modo vrio,  ponto incontroverso, em presena dos autores. Varro,
Ccero, Aquiles, Aulo Glio, Suetnio, Higino, Proprcio, Marcila falam de
diferentes objetos com que as crianas se entretinham, ou fossem bonecos, ou
espadas de pau, ou bolas, ou anlogos artifcios. Nenhum deles, entretanto, diz
uma s palavra do co de lata ao rabo. Ser crvel que, se tal gnero de
divertimento houvera entre romanos e gregos, nenhum autor nos desse dele alguma
notcia, quando o fator de haver Alcibades cortado a cauda de um co seu 
citado solenemente no livro de Plutarco?

Assim explorada a origem do uso,
entrarei no exame do assunto que... (No houvera tempo para concluir).

CAPTULO
III.

ESTILO LARGO E CLSSICO

Larga messe de louros se oferece
s inteligncias altloquas, que, no prlio agora encetado, tm de terar armas
temperadas e finais, ante o ilustre mestre e guia de nossos trabalhos; e
porquanto os apoucamentos do meu esprito me no permitem justar com glria, e
qui me condenam a pronto desbaratamento, contento-me em seguir de longe a
trilha dos vencedores, dando-lhes as palmas da admirao.

Manha foi sempre puercia atar uma
lata ao apndice posterior do co: e essa manha, no por certo louvvel, 
quase certo que a tiveram os prvulos de Atenas, no obstante ser a
abelha-mestra da antigidade, cujo mel ainda hoje gosta o paladar dos
sabedores.

Tinham alguns infantes, por brinco
e gala, atado uma lata a um co, dando assim folga a aborrecimentos e enfados
de suas tarefas escolares. Sentindo a mortificao do barbante, que lhe prendia
a lata, e assustado com o soar da lata nos seixos do caminho, o co ia to cego
e desvairado, que a nenhuma coisa ou pessoa parecia atender.

Movidos da curiosidade, acudiam os
vizinhos s portas de suas vivendas, e, longe de sentirem a compaixo natural
do homem quando v padecer outra criatura, dobravam os agastamentos do co com surriadas
e vaias. O co perlustrou as ruas, saiu aos campos, aos andurriais, at
entestar com uma montanha, em cujos alcantilados pncaros desmaiava o sol, e ao
p de cuja base um mancebo apascoava o seu gado.

Quis o Supremo Opfice que este
mancebo fosse mais compassivo que os da cidade, e fizesse acabar o suplcio do
co. Gentil era ele, de olhos brandos e no somenos em graa aos da mais
formosa donzela. Com o cajado ao ombro, e sentado num pedao de rochedo,
manuseava um tomo de Virglio, seguindo com o pensamento a trilha daquele
caudal engenho. Apropinquando-se o co do mancebo, este lhe lanou as mos e o
deteve. O mancebo varreu logo da memria o poeta e o gado, tratou de
desvincular a lata do co e o fez em poucos minutos, com mor destreza e pacincia.

O co, alis vultoso, parecia
haver desmedrado fortemente, depois que a malcia dos meninos o pusera em to
apertadas andanas. Livre da lata, lambeu as mos do mancebo, que o tomou para
si, dizendo:  De ora avante, me acompanhars ao pasto.

Folgareis certamente com o caso
que deixo narrado, embora no possa o apoucado e rude estilo do vosso
condiscpulo dar ao quadro os adequados toques. Feracssimo  o campo para
engenhos de mais alto quilate; e, embora abastado de urzes, e porventura
coberto de trevas, a imaginao dar o fio de Ariadne com que si vencer os
mais complicados labirintos.

Entranhado anelo me enche de
antecipado gosto, por ler os produtos de vossas inteligncias, que sero em
tudo dignos do nosso digno mestre, e que desafiaro a foice da morte colhendo
vasta seara de louros imarcescveis com que engrinaldareis as fontes imortais.

Tais so os trs escritos;
dando-os ao prelo, fico tranqilo com a minha conscincia; revelei trs
escritores.
