Conto, O contrato, 1884

O contrato

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em Estao,
em 29/02/1884.

Quem quiser celebrar um consrcio,
examine primeiro as condies, depois as foras prprias, e, finalmente, faa
um clculo de probabilidades. Foi o que no cumpriram estas duas meninas de
colgio, cuja histria vou contar em trs folhas de almao. Eram amigas, e no
se conheciam antes. Conheceram-se ali, simpatizaram uma com a outra, e travaram
uma dessas amizades que resistem aos anos, e so muita vez a melhor recordao
do passado. Josefa tinha mais um ano que Laura; era a diferena. No mais as
mesmas. Igual estatura, igual ndole, iguais olhos e igual nascimento. Eram
filhas de funcionrios pblicos, ambas dispondo de um certo legado, que lhes
deixara o padrinho. Para que a semelhana seja completa, o padrinho era o
mesmo, um certo Comendador Brs, capitalista.

Com tal ajuste de condies e
circunstncias, no precisavam mais nada para serem amigas. O colgio ligou-as
desde tenros anos. No fim de poucos meses de freqncia, eram as mais unidas
criaturas de todo ele, a ponto de causar inveja s outras, e at desconfiana,
porque como cochichavam muita vez sozinhas, as outras imaginavam que diziam mal
das companheiras. Naturalmente, as relaes continuaram c fora, durante o
colgio, e as famlias vieram a ligar-se, graas s meninas. No digo nada das
famlias, porque no  o principal do escrito, e eu prometi escrever isto em
trs folhas de almao; basta saber que tinham ainda pai e me. Um dia, no
colgio, contavam elas onze e doze anos, lembrou-se Laura de propor  outra,
adivinhem o qu? Vamos ver se so capazes de adivinhar o que foi. Falavam do
casamento de uma prima de Josefa, e que h de lembrar a outra?

 Vamos fazer um contrato?

 Que ?

 Mas diga se voc quer...

 Mas se eu no sei o que ?

 Vamos fazer um contrato:  casar
no mesmo dia, na mesma igreja...

 Valeu! nem voc casa primeiro
nem eu; mas h de ser no mesmo dia.

 Justamente.

Bem pouco valor teria este
convnio, celebrado aos onze anos, no jardim do colgio, se ficasse naquilo;
mas no ficou. Elas foram crescendo e aludindo a ele. Antes dos treze anos j o
tinham ratificado sete ou oito vezes. Aos quinze, aos dezesseis, aos dezessete
tornavam s clusulas, com uma certa insistncia que era tanto da amizade que
as unia como do prprio objeto da conversao, que deleita naturalmente os
coraes de dezessete anos. Da um efeito certo. No s a conversao as ia
obrigando uma para a outra como consigo mesmas. Aos dezoito anos, cada uma
delas tinha aquele acordo infantil como um preceito religioso.

No digo se elas andavam ansiosas
de cumpri-lo, porque uma tal disposio de nimo pertence ao nmero das coisas
provveis e quase certas; de maneira que, no esprito do leitor, podemos crer
que  uma questo vencida. Restava s que aparecessem os noivos, e eles no
apareciam; mas, aos dezenove anos  fcil esperar, e elas esperavam. No
entanto, andavam sempre juntas, iam juntas ao teatro, aos bailes, aos passeios;
Josefa ia passar com Laura oito dias, quinze dias; Laura ia depois pass-los
com Josefa. Dormiam juntas. Tinham confidncias ntimas; uma referia  outra a
impresso que lhe causara um certo bigode, e ouvia a narrao que a outra lhe
fazia do mundo de coisas que achara em tais ou tais olhos masculinos. Deste
modo punham em comum as impresses e partiam entre si o fruto da experincia.

Um dia, um dos tais bigodes
deteve-se alguns instantes, espetou as guias no corao de Josefa, que
desfaleceu, e no era para menos; quero dizer, deixou-se apaixonar. Pela
comoo dela ao contar o caso, pareceu a Laura que era uma impresso mais
profunda e duradoura do que as do costume. Com efeito, o bigode voltou com as
guias ainda mais agudas, e deu outro golpe ainda maior que o primeiro. Laura
recebeu a amiga, beijou-lhe as feridas, talvez com a idia de sorver o mal com
o sangue, e animou-a muito a pedir ao cu muitos mais golpes como aquele.

 Eu c, acrescentou ela; quero
ver se me acontece a mesma coisa...

 Com o Caetano?

 Qual Caetano!

 Outro?

 Outro, sim, senhora.

 Ingrata! Mas voc no me disse
nada?

 Como, se  fresquinho de ontem?

 Quem ?

Laura contou  outra o encontro de
uns certos olhos pretos, muito bonitos, mas um tanto distrados, pertencentes a
um corpo muito elegante, e tudo junto fazendo um bacharel. Estava encantada;
no sonhava outra coisa. Josefa (falemos a verdade) no ouviu nada do que a amiga
lhe dissera; ps os olhos no bigode assassino e deixou-a falar. No fim disse
distintamente:

 Muito bem.

 De maneira que pode ser que em
breve estejamos cumprindo o nosso contrato. No mesmo dia, na mesma igreja...

 Justamente, murmurou Josefa.

A outra dentro de poucos dias
perdeu a confiana nos olhos negros. Ou eles no tinham pensado nela, ou eram
distrados, ou volveis. A verdade  que Laura tirou-os do pensamento, e
espreitou outros. No os achou logo; mas os primeiros que achou, prendeu-os bem,
e cuidou que eram para toda a eternidade; a prova de que era iluso  que,
tendo eles de ir  Europa, em comisso do governo, no choraram uma lgrima de
saudade; Laura entendeu troc-los por outros, e raros, dois olhos azuis muito
bonitos. Estes, sim, eram dceis, fiis, amigos e prometiam ir at o fim, se a
doena os no colhe,  uma tuberculose galopante que os levou aos Campos do
Jordo, e dali ao cemitrio.

Em tudo isso, gastou a moa uns
seis meses. Durante o mesmo prazo, a amiga no mudou de bigode, trocou muitas
cartas com ele, ele relacionou-se na casa, e ningum ignorava mais que entre
ambos existia um lao ntimo. O bigode perguntou-lhe muita vez se lhe dava
autorizao de a pedir, ao que Josefa respondia que no, que esperasse um
pouco.

 Mas esperar, o qu? inquiria
ele, sem entender nada.

 Uma coisa.

Sabemos o que era a coisa; era o
convnio colegial. Josefa ia contar  amiga as impacincias do namorado, e
dizia-lhe rindo:

 Voc apresse-se...

Laura apressava-se. Olhava para a
direita, para a esquerda, mas no via nada, e o tempo ia passando seis, sete,
oito meses. No fim de oito meses, Josefa estava impaciente; tinha gasto
cinqenta dias a dizer ao namorado que esperasse, e a outra no adiantou coisa
nenhuma. Erro de Josefa; a outra adiantou alguma coisa. No meio daquele tempo
apareceu uma gravata no horizonte com todos os visos conjugais. Laura confiou a
notcia  amiga, que exultou muito ou mais que ela; mostrou-lhe a gravata, e
Josefa aprovou-a, tanto pela cor, como pelo lao, que era uma perfeio.

 Havemos de ser dois casais...

 Acaba: dois casais lindos.

 Eu ia dizer lindssimos.

E riam ambas. Uma tratava de
conter as impacincias do bigode, outra de animar o acanhamento da gravata, uma
das mais tmidas gravatas que tem andado por este mundo. No se atrevia a nada,
ou atrevia-se pouco. Josefa esperou, esperou, cansou de esperar; parecia-lhe
brincadeira de criana; mandou a outra ao diabo, arrependeu-se do convnio,
achou-o estpido, tolo, coisa de criana; esfriou com a amiga, brigou com ela
por causa de uma fita ou de um chapu; um ms depois estava casada.
