Conto, Uma Noite, 1895

Uma
noite

Texto Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis, Vol.
II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em Revista Brasileira,
1895.

CAPTULO PRIMEIRO

 Voc sabe que no tenho pai nem
me,  comeou a dizer o Tenente Isidoro ao alferes Martinho. J lhe disse
tambm que estudei na Escola Central. O que no sabe  que no foi o simples
patriotismo que me trouxe ao Paraguai; tambm no foi ambio militar. Que sou
patriota, e me baterei agora, ainda que a guerra dure dez anos,  verdade,  o
que me agenta e me agentar at o fim. L postos de coronel nem general no
so comigo. Mas, se no foi imediatamente nenhum desses motivos, foi outro;
foi, foi outro, uma alucinao. Minha irm quis dissuadir-me, meu cunhado
tambm; o mais que alcanaram foi que no viesse soldado raso, pedi um posto de
tenente, quiseram dar-me o de capito, mas fiquei em tenente. Para consolar a famlia, disse que, se mostrasse jeito para a guerra, subiria a major ou
coronel; se no, voltaria tenente, como dantes. Nunca tive ambies de qualquer
espcie. Quiseram fazer-me deputado provincial no Rio de Janeiro, recusei a
candidatura, dizendo que no tinha idias polticas. Um sujeito, meio gracioso,
quis persuadir-me que as idias viriam com o diploma, ou ento com os discursos
que eu mesmo proferisse na assemblia legislativa. Respondi que, estando a
assemblia em Niteri, e morando eu na corte, achava muito aborrecida a meia
hora de viagem, que teria de fazer na barca, todos os dias, durante dois meses,
salvo as prorrogaes. Pilhria contra pilhria; deixaram-me sossegado...

CAPTULO II

Os dois oficiais estavam nas
avanadas do acampamento de Tuiuti. Eram ambos voluntrios, tinham recebido o
batismo de fogo na batalha de 24 de maio. Corriam agora aqueles longos meses de
inao, que s terminou em meados de 1867. Isidoro e Martinho no se conheciam
antes da guerra, um viera do Norte, outro do Rio de Janeiro. A convivncia os
fez amigos, o corao tambm, e afinal a idade, que era no tenente de vinte e
oito anos, e no alferes de vinte e cinco. Fisicamente, no se pareciam nada. O
Alferes Martinho era antes baixo que alto, enxuto de carnes, o rosto moreno,
mas salientes, boca fina, risonha, maneiras alegres. Isidoro no se podia
dizer triste, mas estava longe de ser jovial. Sorria algumas vezes, conversava com
interesse. Usava grandes bigodes. Era alto e elegante, peito grosso, quadris
largos, cintura fina.

Semanas antes, tinham estado no
teatro do acampamento. Este era agora uma espcie de vila improvisada, com
espetculos, bailes, bilhares, um peridico e muita casa de comrcio. A comdia
representada trouxe  memria do alferes uma aventura amorosa que lhe sucedera
nas Alagoas, onde nascera. Se no a contou logo, foi por vergonha; agora,
porm, como estivesse passeando com o tenente e lhe falasse das caboclinhas do
Norte, Martinho no pde ter mo em si e referiu os seus primeiros amores.
Podiam no valer muito; mas foram eles que o levaram para o Recife, onde
alcanou um lugar na secretaria do governo; sobrevindo a guerra, alistou-se com
o posto de alferes. Quando acabou a narrao, viu que Isidoro tinha os olhos no
cho, parecendo ler por letras invisveis alguma histria anloga.
Perguntou-lhe o que era.

 A minha histria  mais longa e
mais trgica, respondeu Isidoro.

 Tenho as orelhas grandes, posso ouvir
histrias compridas, replicou o alferes rindo. Quanto a ser trgica, olhe que
passar, como eu passei, metido no canavial,  espera de cinco ou dez tiros que
me levassem, no  histria de farsa. Vamos, conte; se  coisa triste, eu sou
amigo para tristezas.

Isidoro comeou a sentir desejo de
contar a algum uma situao penosa e aborrecida, causa da alucinao que o
levou  guerra. Batia-lhe o corao, a palavra forcejava por subir  boca, a
memria ia acendendo todos os recantos do crebro. Quis resistir, tirou dois
charutos, ofereceu um ao alferes, e falou dos tiros das avanadas. Brasileiros
e paraguaios tiroteavam naquela ocasio,  o que era comum,  pontuando com
balas de espingardas a conversao. Algumas delas coincidiam porventura com os
pontos finais das frases, levando a morte a algum; mas que essa pontuao
fosse sempre exata ou no, era indiferente aos dois rapazes. O tempo
acostumara-os  troca de balas; era como se ouvissem rodar carros pelas ruas de
uma cidade em paz. Martinho insistia pela confidncia.

 Levar mais tempo que fumar este
charuto?

 Pode levar menos, pode tambm
levar uma caixa inteira, redargiu Isidoro; tudo depende de ser resumido ou
completo. Em acampamento, h de ser resumido. Olhe que nunca referi isto a
ningum; voc  o primeiro e o ltimo.

CAPTULO III

Isidoro principiou como vimos e
continuou desta maneira:

 Morvamos em um arrabalde do Rio
de Janeiro; minha irm no estava ainda casada, mas j estava pedida; eu
continuava os estudos. Vagando uma casa fronteira  nossa, meu futuro cunhado
quis alug-la, e foi ter com o dono, um negociante da Rua do Hospcio.

 Est meio ajustada, disse este;
a pessoa ficou de mandar-me a carta de fiana amanh de manh. Se no vier, 
sua.

Mal dizia isto, entrou na loja uma
senhora, moa, vestida de luto, com um menino pela mo; dirigiu-se ao
comerciante e entregou-lhe um papel; era a carta de fiana. Meu cunhado viu que
no podia fazer nada, cumprimentou e saiu. No dia seguinte, comearam a vir os
trastes; dois dias depois estavam os novos moradores em casa. Eram trs pessoas; a tal moa de luto, o pequeno que a acompanhou  Rua do Hospcio, e a me
dela, D. Leonor, senhora velha e doente. Com pouco, soubemos que a moa, D.
Camila, tinha vinte e cinco anos de idade, era viva de um ano, tendo perdido o
marido ao fim de cinco meses de casamento. No apareciam muito. Tinham duas
escravas velhas. Iam  missa ao domingo. Uma vez, minha irm e a viva
encontraram-se ao p da pia, cumprimentaram-se com afabilidade. A moa levava a
me pelo brao. Vestiam com decncia, sem luxo.

Minha me adoeceu. As duas
vizinhas fronteiras mandavam saber dela todas as manhs e oferecer os seus
servios. Restabelecendo-se, minha me quis ir pessoalmente agradecer-lhes as
atenes. Voltou cativa.

 Parece muito boa gente,
disse-nos. Trataram-me como se fssemos amigas de muito tempo, cuidadosas,
fechando uma janela, pedindo-me que mudasse de lugar por causa do vento. A
filha, como  moa, desfazia-se mais em obsquios. Perguntou-me por que no levei Claudina, e elogiou-a muito; j sabe do casamento e acha
que o Dr. Lacerda d um excelente marido.

 De mim no disse nada? perguntei
eu rindo.

 Nada.

Trs dias depois vieram elas
agradecer o favor da visita pessoal de minha me. No estando em casa, no pude
v-las. Quando me deram notcia, ao jantar, achei comigo que as vizinhas
pareciam querer meter-se  cara da gente, e pensei tambm que tudo podia ser
urdido pela moa, para aproximar-se de mim. Eu era ftuo. Supunha-me o mais
belo homem do bairro e da cidade, o mais elegante, o mais fino, tinha algumas
namoradas de passagem, e j contava uma aventura secreta. Pode ser que ela me
veja todos os dias,  sada e  volta, disse comigo, e acrescentei por chacota:
a vizinha quer despir o luto e vestir a solido. Em substncia, sentia-me
lisonjeado.

Antes de um ms, estavam as
relaes travadas, minha irm e a vizinha eram amigas. Comecei a v-la em nossa
casa. Era bonita e graciosa, tinha os olhos garos e ria por eles. Posto
conservasse o luto, temperado por alguns laos de fita roxa, o total da figura
no era melanclico. A beleza vencia a tristeza. O gesto rpido, o andar
ligeiro, no permitiam atitudes saudosas nem pensativas. Mas, quando
permitissem, a ndole de Camila era alegre, ruidosa, expansiva. Chegava a ser
estouvada. Falava muito e ria muito, ria a cada passo, em desproporo com a
causa, e, no raro, sem causa alguma. Pode dizer-se que saa fora da conta e da
linha necessrias; mas, nem por isso enfadava, antes cativava. Tambm  certo
que a presena de um estranho devolvia a moa ao gesto encolhido; a simples
conversao grave bastava a faz-la grave. Em suma, o freio da educao apenas
moderava a natureza irrequieta e volvel. Soubemos por ela mesma que a me era
viva de um capito-de-fragata, de cujo meio soldo vivia, alm das rendas de
umas casinhas que lhe deixara o primeiro marido, seu pai. Ela, Camila, fazia
coletes e roupas brancas. Minha irm, ao contar-me isto, disse-me que tivera
uma sensao de vexame e de pena, e mudou de conversa; tudo intil, porque a
vizinha ria sempre, e contava rindo que trabalhava de manh, porque,  noite, o
branco lhe fazia mal aos olhos. No cantava desde que perdera o marido, mas a
me dizia que 'a voz era de um anjo'. Ao piano era divina; passava a
alma aos dedos, no aquela alma tumultuosa, mas outra mais quieta, mais doce,
to metida consigo que chegava a esquecer-se deste mundo. O aplauso fazia-a
fugir, como pomba assustada, e a outra alma passava aos dedos para tocar uma
pea jovial qualquer, uma polca por exemplo,  meu Deus! s vezes, um lundu.

Voc cr naturalmente que essa
moa me enfeitiou. Nem podia ser outra coisa. O diabo da viuvinha entrou-me
pelo corao saltando ao som de um pandeiro. Era tentadora sem falar nem rir;
falando e rindo era pior. O pssimo  que eu sentia nela no sei que
correspondncia dos meus sentimentos mal sopitados. s vezes, esquecendo-me a
olhar para ela, acordava repentinamente, e achava os olhos dela fitos em mim. J lhe disse que eram garos. Disse tambm que ria por eles. Naquelas ocasies, porm,
no tinham o riso do costume, nem sei se conservavam a mesma cor. A cor pode
ser, no a via, no sentia mais que o peso grande de uma alma escondida dentro
deles. Era talvez a mesma que lhe passava aos dedos quando tocava. Toda essa
mulher devia ser feita de fogo e nervos. Antes de dois meses estava apaixonado,
e quis fugir-lhe. Deixe-me dizer-lhe toda a minha corrupo,  nem pensava em
casar, nem podia ficar ao p dela, sem arrebat-la um dia e lev-la ao inferno.
Comecei a no estar em casa, quando ela ia l, e no acompanhava a famlia 
casa dela. Camila no deu por isso na primeira semana,  ou simulou que no.
Passados mais dias, perguntou a minha irm:

 O Doutor Isidoro est zangado
conosco?

 No! por qu?

 J nos no visita. So estudos,
no? Ou namoro, quem sabe? H namoro no beco, concluiu rindo.

 Rindo? perguntei a minha irm,
quando me repetiu as palavras de Camila.

A pergunta em si era uma
confisso; o tom em que a fiz, outra; a seriedade que me ficou, outra e maior.
Minha irm quis explicar a amiga. Eu, de mim para mim, jurei que no a veria
nunca mais. Dois dias depois, sabendo que ela vinha  nossa casa, deixei-me
estar com o pretexto de me doer a cabea; mas, em vez de me fechar no gabinete,
fui v-la rir ou faz-la rir. A comoo que lhe vi nos primeiros instantes
reconciliou-nos. Reatamos o fio que amos tecendo, sem saber bem onde pararia a
obra. J ento ia s a casa delas; meu pai estava enfraquecendo muito, minha
me fazia-lhe companhia, minha irm ficava com o noivo, eu ia s. No percamos
tempo que os tiros se aproximam, e pode ser que nos chamem. Dentro de dez dias
estvamos declarados. O amor de Camila devia ser forte; o meu era fortssimo.
Foi na sala de visitas, sozinhos, a me cochilava na sala de jantar. Camila,
que falava tanto e sem parar, no achou palavra que dissesse. Eu agarrei-lhe a
mo, quis pux-la a mim; ela, ofegante, deixou-se cair numa cadeira.
Inclinei-me, desatinado, para lhe dar um beijo; Camila desviou a cabea, recuou
a cadeira com fora e quase caiu para trs.

 Adeus, adeus, at amanh,
murmurou ela.

No dia seguinte, como eu
formulasse o pedido de casamento, respondeu-me que pensasse em outra coisa.

 Ns nos amamos, disse ela; o
senhor ama-me desde muito, e quer casar comigo, apesar de ser uma triste viva
pobre...

 Quem lhe fala nisso? Deixa de
ser viva, nem pobre, nem triste.

 Sim, mas h um obstculo. Mame
est muito doente, no quero desampar-la.

 Desampar-la? Seremos dois ao p
dela, em vez de uma s pessoa. A razo no serve, Camila; h de haver outra.

 No tenho outra. Fiz esta
promessa a mim mesma, que s me casaria depois que mame se fosse deste mundo.
Ela, por mais que saiba do amor que lhe tenho, e da proteo que o senhor lhe
dar, ficar pensando que eu vou para meu marido, e que ela passar a ser uma
agregada incmoda. H de achar natural que eu pense mais no senhor que nela.

 Pode ser que a razo seja
verdadeira; mas o sentimento, Camila,  esquisito, sem deixar de ser digno.
Pois no  natural at que o seu casamento lhe d a ela mais fora e alegria,
vendo que a no deixa sozinha no mundo?

Talvez que esta objeo a abalasse
um pouco; refletiu, mas insistiu.

 Mame vive principalmente das
minhas carcias, da minha alegria, dos meus cuidados, que so s para ela...

 Pois vamos consult-la.

 Se a consultarmos querer que
nos casemos logo.

 Ento no supor que fica sendo
agregada incmoda.

 J, j, no; mas pens-lo- mais
tarde; e quer que lhe diga tudo? H de pens-lo e com razo. Eu, provavelmente,
serei toda de meu marido: durante a lua de-mel, pelo menos,  continuou rindo,
e concluiu triste:  e a lua-de-mel pode lev-la. No, no; se me ama deveras,
esperemos; a minha velha morrer ou sarar. Se no pode esperar, pacincia.

Creio que lhe vi os olhos midos;
o riso que ria por eles deixou-se velar um pouco daquela chuvazinha passageira.
Concordei em esperar, com o plano secreto de comunicar  me de Camila os
nossos desejos, a fim de que ela prpria nos ligasse as mos. No disse nada a
meus pais, certo de que ambos aceitariam a escolha; mas ainda contra a vontade
deles, casaria. Minha irm soube de tudo, aprovou tudo, e tomou a si guiar as
negociaes com a velha enferma. Entretanto, a paixo de Camila no lhe trocou
a ndole. Tagarela, mas graciosa, risonha sem banalidade, toda vida e
movimento... No me canso em repetir essas coisas. Tinha dias tristes ou
calados; eram aqueles em que a molstia da me parecia agravar-se. Eu padecia
com a mudana, uma vez que a vida da me era empecilho  nossa ventura;
sentimento mau, que me enchia de vergonha e de remorsos. No quero cans-lo com
as palavras que trocvamos e foram infinitas, menos ainda com os versos que lhe
fiz;  verdade, Martinho, cheguei ao extremo de fazer versos; lia os de outros
para compor os meus, e da fiquei com tal ou qual soma de imagens e de
expresses poticas...

Um dia, ao almoo, ouvimos rumor
na escada, vozes confusas, choro; mandei ver o que era. Uma das escravas da
casa fronteira vinha dar notcia... Cuidei que era a morte da velha, e tive uma
sensao de prazer. Ai, meu amigo! a verdade era outra e terrvel.

 Nh Camila est doida!

No sei o que fiz, nem por onde
sa, mas instantes depois entrava pela casa delas. Nunca pude ter memria clara
dos primeiros instantes. Vi a pobre velha, cada num sof da sala; vinham de
dentro os gritos de Camila. Se acudi ou no  velha, no sei; mas  provvel
que corresse logo para o interior, onde dei com a moa furiosa, torcendo-se
para escapar s mos de dois calceteiros que trabalhavam na rua e acudiram ao
pedido de socorro de uma das escravas. Quis ajud-los; pensei em influir nela
com a minha pessoa, com a minha palavra; mas, ao que cuido, no via nem ouvia
nada. No afirmo tambm se lhe disse alguma coisa e o que foi. Os gritos da
moa eram agudos, os movimentos raivosos, a fora grande; tinha o vestido
rasgado, os cabelos despenteados. Minha famlia chegou logo; o inspetor de quarteiro
e um mdico apareceram e deram as primeiras ordens. Eu, tonto, no sabia que
fizesse, achava-me num estado que podia ser contgio do terrvel acesso. Camila
pareceu melhorar, no forcejava por desvencilhar-se dos homens que a retinham;
estes, confiando na quietao dela, soltaram-lhe os braos. Veio outra crise,
ela atirou-se para a escada, e teria l chegado e rolado, se eu no a
sustivesse pelos vestidos. Quis voltar-se para mim; mas os homens acudiram e
novamente a retiveram.

Algumas horas correram, antes que
as ordens todas da autoridade fossem expedidas e cumpridas. Minha irm veio ter
comigo para levar-me para a outra sala ou para casa; recusei. Uma vez ainda a
exaltao e o furor de Camila cessaram, mas os homens no lhe deixaram os
braos soltos. Quando se repetiu o fenmeno, o prazo foi mais longo, fizeram
sent-la, os homens afrouxaram os braos. Eu, cosido  parede, fiquei a olhar
para ela, notando que as palavras eram j poucas, e, se ainda sem sentido, no
eram aflitas, nem ela repetia os guinchos agudos. Os olhos vagavam sem ver;
mas, fitando-me de passagem, tornaram a mim, e ficaram parados alguns segundos,
rindo como era costume deles quando tinham sade. Camila chamou-me, no pelo
nome, disse-me que fosse ter com ela. Acudi prontamente, sem dizer nada.

 Chegue-se mais.

Obedeci; ela quis estender-me a
mo, o homem que a segurava, reteve-a com fora; eu disse-lhe que deixasse, no
fazia mal, era um instante. Camila deu-me a mo livre, eu dei-lhe a minha. A
princpio, no tirou os olhos dos meus; mas j ento no ria por eles, tinha-os
quietos e apagados. De repente, levou a minha mo  boca, como se fosse
beij-la. Tendo libertado a outra (foi tudo rpido) segurou a minha com fora e
cravou-lhe furiosamente os dentes; soltei um grito. A boca ficou-lhe cheia de
sangue. Veja; tenho ainda os sinais nestes dois dedos...

No me quero demorar neste ponto
da minha histria. Digo-lhe sumariamente que os mdicos entenderam necessrio
recolher Camila ao Hospcio de Pedro II. A me morreu quinze dias depois. Eu
fui concluir os meus estudos na Europa. Minha irm casou, meu pai no durou
muito, minha me acompanhou-o de perto. Pouco tempo depois, minha irm e meu
cunhado foram ter comigo. J me acharam no esquecido, mas consolado. Quando
tornamos ao Rio de Janeiro passavam quatro anos daqueles acontecimentos. Fomos
morar juntos, mas em outro bairro. Nada soubemos de Camila, nem indagamos nada;
ao menos eu.

Uma noite, porm, andando a
passear, aborrecido, comeou a chover, e entrei num teatro. No sabia da pea,
nem do autor, nem do nmero de atos; o bilheteiro disse-me que ia comear o
segundo. Na terceira ou quarta cena, vejo entrar uma mulher, que me abalou
todo; pareceu-me Camila. Fazia um papel de ingnua, creio; entrou lentamente e
travou frouxamente um dilogo com o gal. No tinha que ver; era a prpria voz
de Camila. Mas, se ela estava no Hospcio, como podia achar-se no teatro? Se
havia sarado, como se fizera atriz? Era natural que estivesse a costurar, e se
alguma coisa lhe restava das casinhas da me... Perguntei a um vizinho da
platia como se chamava aquela dama.

 Plcida, respondeu-me.

No  ela, pensei; mas refletindo
que podia ter mudado de nome, quis saber se estava h muito tempo no teatro.

 No sei; apareceu aqui h meses.
Acho que  novata na cena, fala muito arrastado, tem talento.

No podia ser Camila; mas to
depressa achava que no, um gesto da mulher, uma inflexo de voz, qualquer
coisa me dizia que era ela mesma. No intervalo lembrou-me de ir  caixa do
teatro. No conhecia ningum, no sabia se era fcil entrar desconhecido,
cheguei  porta de comunicao e bati. Ningum abriu nem perguntou quem era.
Da a nada vi sair de dentro um homem, que empurrou simplesmente a porta e
deixou-a cair. Puxei a porta e entrei. Fiquei aturdido no meio do movimento;
criei nimo e perguntei a um empregado se podia falar a D. Plcida.
Respondeu-me que provavelmente estava mudando de trajo, mas que fosse com ele.
Chegando  porta de um camarim, bateu.

 D. Plcida?

 Quem ?

 Est aqui um senhor que lhe
deseja falar.

 Que espere!

A voz era dela. O sangue entrou a
correr-me acelerado; afastei-me um pouco e esperei. Minutos depois, a porta do
camarim abriu-se, saiu uma criada; enfim, a porta escancarou-se, e apareceu a
figura de atriz. Aproximei-me, e fizemos teatro no teatro: reconhecemo-nos um
ao outro. Entrei no camarim, apertamos as mos, e durante algum tempo no
pudemos dizer nada. Ela, por baixo do carmim, empalidecera; eu senti-me lvido.
Ouvi apitar; era o contra-regra que mandava subir o pano.

 Vai subir o pano, disse-me ela
com a voz lenta e abafada. Entro na segunda cena. Espera-me?

 Espero.

 Venha c para os bastidores.

Falei-lhe ainda duas vezes nos
bastidores. Soube na conversao onde morava, e que morava s. Como a chuva
aumentasse e casse agora a jorros, ofereci-lhe o meu carro. Aceitou. Sa para
alugar um carro de praa; no fim do espetculo, mandei que a recebesse  porta
do teatro, e acompanhei-a dando-lhe o brao, no meio do espanto de atores e empregados.
Depois que ela entrou, despedi-me.

 No, no, disse ela. Pois h de
ir por baixo dgua? Entre tambm, venha deixar-me  porta.

Entrei e partimos. Durante os
primeiros instantes, parecia-me delirar. Aps quatro anos de separao e
ausncia, quando supunha aquela senhora em outra parte, eis-me dentro de uma
carruagem com ela, duas horas depois de a tornar a ver. A chuva que caa forte,
o tropel dos cavalos, o rodar da carruagem, e por fim a noite, complicavam a
situao do meu esprito. Cria-me doido. Vencia a comoo falando, mas as
palavras no teriam grande ligao entre si, nem seriam muitas. No queria
falar da me; menos ainda perguntar-lhe pelos acontecimentos que a trouxeram 
carreira de atriz. Camila  que me disse que estivera doente, que perdera a me
fora da Corte, e que entrara para o teatro por ver um dia uma pea em cena; mas
sentia que no tinha vocao. Ganho a minha vida, concluiu. Ao ouvir esta
palavra, apertei-lhe a mo cheio de pena; ela apertou a minha e no a soltou
mais. Ambas ficaram sobre o joelho dela. Estremeci; no lhe perguntei quem a
levara ao teatro, onde vira a pea que a fez fazer-se atriz. Deixei estar a mo
no joelho. Camila falava lentamente, como em cena; mas a comoo aqui era
natural. Perguntou-me pelos meus; disse-lhe o que havia. Quando falei do
casamento de minha irm, senti que me apertou os dedos; imaginei que era a
recordao do malogro do nosso. Enfim, chegamos. Fi-la descer, ela entrou
depressa no corredor, onde uma preta a esperava.

 Adeus, disse-lhe.

 Est chovendo muito; por que no
toma ch comigo?

No tinha a menor vontade de
ir-me; ao contrrio, queria ficar, a todo custo, tal era a ressurreio das
sensaes de outrora. Entretanto, no sei que fora de respeito me detinha 
soleira da porta. Disse que sim e que no.

 Suba, suba, replicou ela
dando-me o brao.

A sala era trastejada com
simplicidade, antes vizinha da pobreza que da mediania. Camila tirou a capa, e
sentou-se no sof, ao p de mim. Vista agora, sem o caio nem o carmim do
teatro, era uma criatura plida, representando os seus vinte e nove anos, um
tanto fatigada, mas ainda bela, e acaso mais cheia de corpo. Abria e fechava um
leque desnecessrio. s vezes apoiava nele o queixo e fitava os olhos no cho,
ouvindo-me. Estava comovida, decerto; falava pouco e a medo. A fala e os gestos
no eram os de outro tempo, no tinham a volubilidade e a agitao, que a
caracterizavam; dir-se-ia que a lngua acompanhava de longe o pensamento, ao
invs de outrora, em que o pensamento mal emparelhava com a lngua. No era a
minha Camila; era talvez a de outro; mas, que tinha que no fosse a mesma?
Assim pensava eu,  medida da nossa conversao sem assunto. Falvamos de tudo
o que no ramos, ou nada tinha com a nossa vida de quatro anos passados; mas
isso mesmo era disperso, desalinhado, roto, uma palavra aqui, outra ali, sem
interesse aparente ou real. De uma vez perguntei-lhe:

 Espera ficar no teatro muito
tempo?

 Creio que sim, disse ela; ao
menos, enquanto no acabar a educao de meu sobrinho.

  verdade; deve estar um
mocinho.

 Tem onze anos, vai fazer doze.

 Mora com a senhora? perguntei
depois de um minuto de pausa.

 No; est no colgio. J lhe
disse que moro s. Minha companhia  este piano velho, concluiu levantando-se e
indo a um canto, onde vi pela primeira vez um pequeno piano, ao p da porta da
alcova.

 Vamos ver se ele  seu amigo,
disse-lhe.

Camila no hesitou em tocar. Tocou uma pea que acertou de ser a primeira que executara em nossa casa, quatro anos
antes. Acaso ou propsito? Custava-me a crer que fosse propsito, e o acaso
vinha cheio de mistrios. O destino ligava-nos outra vez, por qualquer vnculo,
legtimo ou esprio? Tudo me parecia assim; o noivo antigo dava de si apenas um
amante de arribao. Tive mpeto de aproximar-me dela, derrear-lhe a cabea e
beij-la muito. No teria tempo; a preta veio dizer que o ch estava na mesa.

 Desculpe a pobreza da casa,
disse ela entrando na sala de jantar. Sabe que nunca fui rica.

Sentamo-nos defronte um do outro.
A preta serviu o ch e saiu. Ao comer no havia diferena de outrora, comia
devagar; mas isso, e o gesto encolhido, e a fala a modo que amarrada, davam um
composto to diverso do que era antigamente, que eu podia am-la agora sem
pecado. No lhe estou dizendo o que sinto hoje; estou mostrando francamente a
voc a falta de delicadeza da minha alma. O respeito que me detivera um
instante  soleira da porta, j me no detinha agora  porta da alcova.

 Em que  que pensa? perguntou
ela aps certa pausa.

 Penso em dizer-lhe adeus,
respondi estendendo-lhe a mo;  tarde.

 Que sinais so estes? perguntou
ela olhando-me para os dedos.

Certamente empalideci. Respondi
que eram sinais de um golpe antigo. Mirou muito a mo; eu cuidei a princpio
que era um pretexto para no solt-la logo; depois ocorreu-me se acaso alguma
reminiscncia vaga emergia dos velhos destroos do delrio.

 A sua mo treme, disse ela,
querendo sorrir.

Uma idia traz outra. Saberia ela
que estivera louca? Outra depois e mais terrvel. Essa mulher que conheci to
esperta e gil, e que agora me aparecia to morta, era o fruto da tristeza da
vida e de sucessos que eu ignorava, ou puro efeito do delrio, que lhe torcera
e esgalhara o esprito? Ambas as hipteses,  a segunda principalmente, 
deram-me uma sensao complexa, que no sei definir,  pena, repugnncia,
pavor. Levantei-me e fitei-a por alguns instantes.

 A chuva ainda no parou, disse
ela; voltemos para a sala.

Voltamos para a sala. Tornou ao
sof comigo. Quanto mais olhava para ela, mais sentia que era uma aleijada do
esprito, uma convalescente da loucura... A minha repugnncia crescia, a pena
tambm; ela, fitando-me os olhos que j no sabiam rir, segurou-me a mo com
ambas as suas; eu levantei-me para sair...

Isidoro deu uma volta e caiu; uma
bala paraguaia varou-lhe o corao, estava morto. No se conheceu outro amigo
ao alferes. Por muitas semanas o pobre Martinho no disse uma s chalaa. Em
compensao, continuou sempre bravo e disciplinado. No dia em que o Marechal
Caxias, dando novo impulso  guerra, marchou para Tuiu-Cu, ningum foi mais
resoluto que ele, ningum mais certo de acabar capito; acabou major.
