Conto, Um Incndio, 1906

Um
incndio

Texto Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis, Vol.
II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em Almanaque Brasileiro Garnier,
1906.

Que esta perna trouxe eu dali
ferida.

CAMES, Os Lusadas, c. V, est.
XXXIII.

No inventei o que vou contar, nem
o inventou o meu amigo Abel. Ele ouviu o fato com todas as circunstncias, e um
dia, em conversa, fez resumidamente a narrao que me ficou de memria, e aqui
vai tal qual. No lhe achars o pico, a alma prpria que este Abel pe a tudo o
que exprime, seja uma idia dele, seja, como no caso, uma histria de outro.
Pacincia; por mais que percas a respeito da forma, no perders nada acerca da
substncia. A razo  que me no esqueceu o que importa saber, dizer e
imprimir.

B... era um oficial da marinha
inglesa, trinta a trinta e dois anos, alto, ruivo, um pouco cheio, nariz reto e
pontudo, e os olhos dois pedaos de cu claro batidos de sol. Convalescia de
uma perna quebrada. J ento andava (no ainda na rua) apoiado a uma muleta
pequena. Andava na sala do hospital ingls, aqui no Rio, onde Abel o viu e lhe
foi apresentado, quando ali ia visitar um amigo enfermo, tambm ingls e padre.

Padre, oficial de marinha e
engenheiro (Abel  engenheiro) conversavam freqentemente de vrias coisas
deste e do outro mundo. Especialmente o oficial contava cenas de mar e de
terra, lances de guerra e aventuras de paz, costumes diversos, uma infinidade
de reminiscncias que podiam ser dadas ao prelo e agradar. Foi o que lhe disse
o padre um dia.

 Agradar no creio, respondeu ele
modestamente.

 Afirmo-lhe que sim.

 Afirma demais. E da pode ser
que, no ficando inteiramente bom da perna, deixe a carreira das armas. Nesse
caso, escreverei memrias e viagens para alguma das nossas revistas. Iro sem
estilo, ou em estilo martimo...

 Que importa uma perna?
interrompeu Abel. A Nlson faltava um brao.

 No  a mesma coisa, redargiu
B... sorrindo. Nelson, ainda sem brao, faria o que eu fiz no ms de abril, na
cidade de Montevidu. Estou eu certo de o fazer agora? Digo-lhe que no.

 Apostou alguma corrida? Mas a
batalha de Trafalgar pode-se ganhar sem brao ou sem perna. Tudo  mandar, no
acha?

A melancolia do gesto do oficial
foi grande, e por muito tempo ele no conseguiu falar. Os olhos chegaram a
perder um tanto a luz intensa que traziam, e ficaram pregados ao longe, em
algum ponto que se no podia ver nem adivinhar. Depois voltou B... a si,
sorriu, como quando dera a segunda resposta. Enfim, arrancou do peito a histria
que queria guardar, e foi ouvida pelos dois, repetida a mim por um deles e
agora impressa, como anunciei a princpio.

Era um sbado de abril. B...
chegara quele porto e descera a terra, deu alguns passeios, bebeu cerveja,
fumou e,  tarde, caminhou para o cais, onde o esperava o escaler de bordo. Ia
a recordar lances de Inglaterra e quadros da China. Ao dobrar uma esquina, viu
certo movimento no fim da outra rua, e, sempre curioso de aventuras, picou o
passo a descobrir o que era. Quando ali chegou j a multido era maior, as
vozes muitas e um rumor de carroas que chegavam de toda parte. Indagou em mau
castelhano, e soube que era um incndio.

Era um incndio no segundo andar
de uma casa; no se sabia se o primeiro tambm ardia. Polcia, autoridades,
bombas iam comear o seu ofcio, sem grande ordem,  verdade, nem seria
possvel. O principal  que havia boa vontade. A gente curiosa e vizinha falava
das moas  que seria das moas? onde estariam as moas? Com efeito, o segundo
andar da casa era uma oficina de costura, regida por uma francesa, que ensinava
e fazia trabalhar a muitas raparigas da terra. Foi o que o oficial pde
entender no meio do tumulto.

Deteve-se para assistir ao
servio, e tambm recolher alguma cena ou costume com que divertisse os
companheiros de bordo e, mais tarde a famlia na Esccia. As palavras
castelhanas iam-lhe bem ao ouvido, menos bem que as inglesas,  verdade, mas h
s uma lngua inglesa. O fogo crescia, comendo e apavorando, no que se visse
tudo c de fora, mas ao fundo da casa, no alto, surgiam flamas cercadas de
fumo, que se espalhavam como se quisessem passar ao quarteiro inteiro.

B... viu episdios interessantes,
que esqueceu logo, tal foi o grito de angstia e terror sado da boca de um
homem que estava ao p dele. Nunca mais lhe esqueceu tal grito; ainda agora
parecia escut-lo. No teve tempo nem lngua em que perguntasse ao desconhecido
o que era. Nem foi preciso; este recuara, com a cabea voltada para cima, os
olhos na janela da casa e a mo trmula, apontando... Outros seguiram a
direo; o oficial de marinha fez o mesmo. Ali, no meio do fumo que rompia por
uma das janelas, destacava-se do claro, ao fundo, a figura de uma mulher. No
se podia distinguir bem, pela hora e pela distncia, se o claro vinha de outro
compartimento que ardia, ou se era j o fogo que invadia a sala da frente.

A mulher parecia hesitar entre a
morte pelo fogo e a morte pela queda. Qualquer delas seria horrvel. Ora o fumo
encobria toda figura, ora esta reaparecia, como que inerte, dominando todas as
demais partes da catstrofe. Os coraes c de baixo batiam com nsia, mas os
ps, atados ao cho pelo terror, no ousavam ir lev-los acima. Tal situao
durou muito ou pouco, o oficial no pde saber se dois segundos, se dois
minutos. Verdadeiramente no soube nada. Quando deu acordo de si ouviu um
clamor novo, que os jornais do dia seguinte disseram ser de protesto e de
aplauso, a um tempo, ao v-lo correr na direo da casa. A alma generosa do
oficial no se conteve, rompeu a multido e enfiou pelo corredor. Um soldado
atravessou-se-lhe na frente, ele deitou o soldado ao cho e galgou os degraus
da escada.

J ento sentia calor de fogo, e o
fumo que descia era um grande obstculo. Tinha que romp-lo, respir-lo, fechar
os olhos. No se lembrava como pde fazer isso; lembrava-se que, a despeito das
dificuldades, chegou ao segundo andar, voltou  esquerda, na direo de uma
porta, empurrou-a, estava aberta; entrou na sala. Tudo a era fumo, que ia
saindo pelas janelas, e o fogo, vindo do gabinete contguo, comeava a devorar
as cortinas da sala. L embaixo, fora continuava o clamor. B... empurrou
cadeiras, uma pequena mesa, at chegar  janela. O fumo rasgou-se de modo que
ele pde ver o busto da mulher... Vencera o perigo; cumpria vencer a morte.

 A mulher,  disse ele ao
terminar a aventura, e provavelmente sem as reticncias que Abel metia neste
ponto da narrao,  a mulher era um manequim, o manequim de costureira, posto
ali de costume ou no comeo do incndio, como quer que fosse, era um manequim.

A morte agora, no tendo mulher
que levasse, parecia espreit-lo a ele, salvador generoso. O oficial duvidou
ainda um instante da verdade; o terror podia ter tirado  pessoa humana todos
os movimentos, e o manequim seria acaso mulher. Foi-se chegando; no, no era
mulher, era manequim; aqui esto as costas encarnadas e nuas, aqui esto os
ombros sem braos, aqui est o pau em que toda a mquina assenta. Cumpria agora
fugir  morte. B... voltou-se rpido; tudo era j fumo, a prpria sala ardia.
Ento ele, com tal esforo que nunca soube o que fez, achou-se fora da sala, no
patamar. Desceu os degraus a quatro e quatro.

No primeiro andar deu j com
homens de trabalho empunhando tubos de extino. Um deles quis prend-lo,
supondo ser ladro que se aproveitasse do desastre para vir buscar valores, e
chegou a peg-lo pela gola; depressa reconheceu a farda e foi andando. No
tendo que fazer ali, embora o perigo fosse menor, o oficial cuidou de descer.
Verdade  que h muita vez algum que se no espera. Transpondo a porta da sala
para o corredor, quando a multido ansiosa estava a esper-lo, na rua, uma
tbua, um ferro, o que quer que era caiu do alto e quebrou-lhe a perna...

 Qu... ? interrompeu Abel.

 Justamente, confirmou o oficial.
No sei de onde veio nem quis sab-lo. Os jornais contaram a coisa, mas no li
essa parte das notcias. Sei que logo depois vieram buscar-me dois soldados,
por ordem do comandante de polcia.

Tratou-se a bordo e em viagem. No continuou por falta de comodidades que s em terra podia ter. Desembarcando aqui,
no Rio de Janeiro, foi para o hospital onde Abel o conheceu. O vaso de guerra
esperava por ele. Contava partir em breves dias. No perdia tempo;
emprestavam-lhe o Times, e livros de histria e de religio. Enfim, saiu
para a Europa. Abel no se despediu dele. Mais tarde soube que, depois de
alguma demora em Inglaterra, foi mandado a Calcut, onde descansou da perna
quebrada, e do desejo de salvar ningum.
