Crtica, Lcio de Mendona: Nvoas matutinas, 1872

Lcio de Mendona: Nvoas matutinas

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Carta
publicada como prefcio a Nvoas martimas, Rio de Janeiro, Frederico
Thompson, 1872.

[RJ,
24 jan. 1872.]

Meu caro
poeta.  Estou que quer fazer destas linhas o intrito de seu livro. Cumpre-me
ser breve para no tomar tempo ao leitor. O louvor, a censura, fazem-se com
poucas palavras. E todavia o ensejo era bom para uma longa dissertao que
comeasse nas origens da poesia helnica e acabasse nos destinos provveis da
humanidade. Ao poeta daria de corao um away, com duas ou trs citaes
mais, que um estilista deve trazer sempre na algibeira, como o mdico o seu
estojo, para estes casos de fora maior.

O ensejo
era bom, porque um livro de versos, e versos de amores, todo cheio de
confidncias ntimas e pessoais, quando todos vivemos e sentimos em prosa, 
caso para reflexes de largo flego.

Eu sou
mais razovel.

Aperto-lhe
primeiramente a mo. Conhecia j h tempo o seu nome ainda agora nascente, e
duas ou trs composies avulsas; nada mais. Este seu livro, que daqui a pouco
ser do pblico, vem mostrar-me mais amplamente o seu talento, que o tem, bem
como os seus defeitos, que no podia deixar de os ter. Defeitos no fazem mal,
quando h vontade e poder de os corrigir. A sua idade os explica, e no at se
os pede; so por assim dizer estranhezas de menina, quase moa: a compostura de
mulher vir com o tempo.

E para
liquidar de uma vez este ponto dos senes, permita-me dizer-lhe que o principal
deles  realizar o livro a idia do ttulo. Chamou-lhe acertadamente Nvoas
Matutinas. Mas por que nvoas? No as tem a sua idade, que  antes
de cu limpo e azul, de entusiasmo e arrebatamento e de f.  isso geralmente o
que se espera ver num livro de rapaz. Imagina o leitor e com razo, que de
envolta com algumas perptuas, viro muitas rosas de boa cor, e acha que estas
so raras. H aqui mais saudades que esperanas, e ainda mais desesperanas que
saudades.


plena primavera, diz o senhor na dedicatria dos seus livros; e contudo, o
que  que envia  dileta de sua alma? Ide, plidas flores peregrinas, exclama
logo adiante com suavidade e graa. No o diz por necessidade de compor o
verso; mas porque efetivamente  assim; porque nesta sua primavera h mais
folhas plidas que verdes.

A razo,
meu caro poeta, no a procure tanto em si, como no tempo;  do tempo esta
poesia prematuramente melanclica. No lhe negarei que h na sua lira uma corda
sensivelmente elegaca, e desde que a h, cumpria tang-la. O defeito est em
torn-la exclusiva. Nisto cede a tendncia comum, e quem sabe tambm se a
alguma intimidade intelectual? O estudo constante de alguns poetas talvez
influsse na feio geral do seu livro.

Quando o
senhor suspira estes belos versos:

 terra
morta num inverno inteiro

Voltam a
primavera e as andorinhas...

E nunca
mais vireis,  crenas minhas,

Nunca
mais voltars, amor primeiro!

nenhuma
objeo lhes fao, creio na dor que eles exprimem, acho que so um eco sincero
do corao. Mas quando o senhor chama a sua alma uma runa, j me achar
mais incrdulo.

Isto lhe
digo eu com conhecimento de causa, porque tambm eu cedi em minhas estrias a
esse pendor do tempo.

Sentimento,
versos cadentes e naturais, idias poticas, ainda que pouco variadas, so
qualidades que a crtica lhe achar neste livro. Se ela disser, e deve
dizer-lho, que a forma nem sempre  correta, e que a linguagem no tem ainda o
conveniente alinho, pode responder-lhe que tais senes o estudo se incumbir de
os apagar.

O pblico
vai examinar por si mesmo o livro. Reconhecera o talento do poeta, a brandura
do seu verso (que por isso mesmo se no adapta aos assuntos polticos, de que
h algumas estncias neste livro), e saber escolher entre estas flores as mais
belas, das quais algumas mencionarei, como sejam: 'Tu',
'Campesina', 'A Volta', 'Galope Infernal'.

Se, como
eu suponho, for o seu livro recebido com as simpatias e animaes que merece,
no durma sobre os louros. No se contente com uma ruidosa nomeada; reaja
contra as sugestes complacentes do seu prprio esprito; aplique o seu talento
a um estudo continuado e severo; seja enfim o mais austero crtico de si mesmo.

Deste
modo conquistar certamente o lugar a que tem pleno direito. Assim o deseja e
espera o seu colega.


