Crtica, Enias Galvo: Miragens, 1885

Enias Galvo: Miragens

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
na Semana Literria, seo do Dirio do Rio de Janeiro, 05/06/1866.

Meu caro poeta,  este
seu livro, com as lacunas prprias de um livro de estria, tem as qualidades
correspondentes, aquelas que so, a certo respeito, as melhores de toda a obra
de um escritor. Com os anos adquire-se a firmeza, domina-se a arte,
multiplicam-se os recursos, busca-se a perfeio que  a ambio e o dever de
todos os que tomam da pena para traduzir no papel as suas idias e sensaes.
Mas h um aroma primitivo que se perde; h uma expanso ingnua, quase
infantil, que o tempo limita e retrai. Compreend-lo- mais tarde, meu caro
poeta, quando essa hora bendita houver passado, e com ela uma multido de
coisas que no voltam, posto desse lugar a outras que as compensam.

Por enquanto fiquemos
na hora presente.  a das confidncias pessoais, dos quadros ntimos,  a deste
livro. Aos que lho argirem, pode responder que sempre haver tempo de alargar
a vista a outros horizontes. Pode tambm advertir que  um pequeno livro,
escolhido, que no cansa, e eu acrescentarei, por minha conta, que se pode ler
com prazer, e fechar com louvor.

Que h nele alguns leves
descuidos, uma ou outra impropriedade,  certo; contudo v-se que a composio
do verso acha da sua parte a ateno que  hoje indispensvel na poesia, e uma
vez que enriquea o vocabulrio, ele lhe sair perfeito. V-se tambm que 
sincero, que exprime os sentimentos prprios, que estes so bons, que h no
poeta um homem, e no homem um corao.

Ou eu me engano, ou tem
a com que tentar outros livros. No restrinja ento a matria, lance os olhos
alm de si mesmo, sem prejuzo, contudo, do talento. Constrang-lo  o maior
pecado em arte. Anacreonte, se quisesse trocar a flauta pela tuba, ficaria sem
tuba nem flauta; assim tambm Homero, se tentasse fazer de Anacreonte, no
chegaria a dar-nos, a troco das suas imortais batalhas, uma das cantigas do poeta
de Teos.

Desculpe a vulgaridade
do conceito; ele  indispensvel aos que comeam. Outro que tambm me parece
cabido  que, no esmero do verso no v ao ponto de cercear a inspirao. Esta
 a alma da poesia, e como toda a alma precisa de um corpo, fora  dar-lho, e
quanto mais belo, melhor; mas nem tudo deve ser corpo. A perfeio, neste caso,
 a harmonia das partes.

Adeus, meu caro Poeta.
Crer nas musas  ainda uma das coisas melhores da vida. Creia nelas e ame-as.


