TEATRO, As Forcas Caudinas, 1956

As Forcas Caudinas

Texto-fonte:

Teatro de Machado de Assis, org. de Joo Roberto Faria,

So Paulo:
  Martins Fontes, 2003.

Publicado
  originalmente
  em Contos Sem Data
  ,
  Machado de Assis,

Rio de
  Janeiro: Civilizao Brasileira, 1956.

Comdia em dois atos

PERSONAGENS

TITO

ERNESTO
  SEABRA

ALEIXO CUPIDOV, coronel russo

EMLIA
  SOARES, viva

MARGARIDA
  SEABRA

UM CORREIO

A cena
  passa-se em Petrpolis -- Atualidade.

ATO PRIMEIRO

(Um jardim:
  mesa, cadeiras de ferro. A casa a um lado.)

Cena I

SEABRA (assentado
  a um lado da mesa, com um livro aberto); MARGARIDA (do outro lado)

SEABRA --
  Queres que paremos aqui?

MARGARIDA --
  Como quiseres.

SEABRA (fechando
  o livro) --  melhor. As coisas boas no se gozam de uma assentada. Guardemos
  um bocado para a noite. Demais, era j tempo que eu passasse do idlio escrito
  para o idlio vivo. Deixa-me olhar para ti.

MARGARIDA -- Jesus! Parece que comeamos a lua-de-mel.

SEABRA --
  Parece e . E se o casamento no fosse eternamente isto o que poderia ser? A
  ligao de duas existncias para meditar discretamente na melhor maneira de
  comer o maxixe e o repolho? Ora, pelo amor de Deus! Eu penso que o casamento
  deve ser um namoro eterno. No pensas como eu?

MARGARIDA --
  Sinto...

SEABRA --
  Sentes,  quanto basta.

MARGARIDA --
  Mas que as mulheres sintam  natural; os homens...

SEABRA -- Os
  homens so homens.

MARGARIDA -- O
  que nas mulheres  sensibilidade, nos homens  pieguice: desde pequena me dizem
  isto.

SEABRA --
  Enganam-te desde pequena.

MARGARIDA --
  Antes isso!

SEABRA --  a
  verdade. E desconfia sempre dos que mais falam, homens ou mulheres. Tens perto
  um exemplo. A Emlia faz um grande cavalo de batalha da sua iseno. Quantas
  vezes se casou? At aqui duas, e est nos vinte e cinco anos. Era melhor
  calar-se mais e casar-se menos.

MARGARIDA --
  Mas nela  brincadeira.

SEABRA -- Pois
  sim. O que no  brincadeira  que os cinco meses do nosso casamento parecem-me
  cinco minutos...

MARGARIDA --
  Cinco meses!

SEABRA -- Como
  foge o tempo!

MARGARIDA --
  Dirs sempre o mesmo?

SEABRA --
  Duvidas?

MARGARIDA --
  Receio.  to bom ser feliz!

SEABRA --
  S-lo-s sempre e do mesmo modo. De outro no entendo eu.

TITO (ao fundo) -- O
  que  que no entendes?

Cena II

MARGARIDA,
  SEABRA, TITO

SEABRA -- Quem ? (levanta-se e vai ao fundo) Ah!  o Tito! Entra! Entra! (abre a cancela) Ah! (abraam-se) Como ests? Acho-te mais gordo! Anda cumprimentar minha
  mulher. Margarida, aqui est o Tito!

TITO -- Minha
  senhora... (a Seabra) Ds licena? (a Margarida) Quem vem de
  longe quer abraos. (d-lhe um abrao) Ah! aproveito a ocasio para
  dar-lhes os parabns.

SEABRA --
  Recebeste a nossa carta de participao?

TITO -- Em
  Valparaso.

SEABRA -- Anda
  sentar-te e conta-me a tua viagem.

TITO -- Isso 
  longo. O que te posso contar  que desembarquei ontem no Rio. Tratei de indagar
  a tua morada. Disseram-me que estavas temporariamente
  em Petrpolis. Descansei
  ,
  mas logo hoje tomei a barca da Prainha e aqui estou. Eu j suspeitava que com o
  teu esprito de poeta irias esconder a tua felicidade em algum recanto do
  mundo. Com efeito, isto  verdadeiramente uma nesga do paraso. Jardim,
  caramanches, unia casa leve e elegante, um livro... (abre o livro) Bravo! Marlia de Dirceu...  completo? Tityre, tu patulae... Caio no
  meio de um idlio. (a Margarida) Pastorinha, onde est o cajado? (Margarida
    ri s gargalhadas) Ri mesmo como uma pastorinha alegre. E tu, Tecrito, que
  fazes? Deixas correr os dias como as guas do Paraba? Feliz criatura!

SEABRA --
  Sempre o mesmo!

TITO -- O
  mesmo doido? (a Margarida) Acha que ele tem razo?

MARGARIDA --
  Acho, se o no ofendo...

TITO -- Qual,
  ofender! Se eu at me honro com isso. Sou um doido inofensivo, isso  verdade.
  Mas  que realmente so felizes como poucos. H quantos meses se casaram?

MARGARIDA --
  Cinco meses fazem domingo.

SEABRA -- Disse h pouco que me pareciam cinco minutos.

TITO -- Cinco meses,
  cinco minutos! Eis toda a verdade da vida. Se os pusessem sobre uma grelha,
  como So Loureno, cinco minutos eram cinco meses. E ainda se fala em tempo! H
  l tempo! O tempo est nas nossas impresses. H meses para os infelizes e
  minutos para os venturosos!

SEABRA -- Mas
  que ventura!

TITO -- Completa, no?
  Imagino! Marido de um serafim nas graas e no corao... Ah! perdo, no
  reparei que estava aqui... mas no precisa corar!... Disto me hs de ouvir
  vinte vezes por dia! o que penso, digo. (a Seabra) Como no te ho de
  invejar os nossos amigos!

SEABRA -- Isso
  no sei.

TITO --
  Pudera! Encafuado neste desvo do mundo de nada podes saber. E fazes bem. Isto
  de ser feliz  vista de todos  repartir a felicidade. Ora, para respeitar o
  princpio devo ir-me j embora...

SEABRA --
  Deixa-te disso: fica conosco.

MARGARIDA --
  Os verdadeiros amigos tambm so a felicidade.

TITO (curvando-se)
  -- Oh!...

SEABRA -- 
  at bom que aprendas em nossa escola a cincia do casamento.

TITO -- Para qu?

SEABRA -- Para te casares.

TITO -- Hum!

MARGARIDA --
  No pretende?

SEABRA -- Ests
  ainda o mesmo que em outro tempo?

TITO -- O mesmssimo.

MARGARIDA --
  Tem horror ao casamento?

TITO -- No tenho
  vocao.  puramente um caso de vocao. Quem a no tiver no se meta nisso que
   perder o tempo e o sossego. Desde muito tempo estou convencido disto.

SEABRA --
  Ainda te no bateu a hora.

TITO -- Nem bate.

SEABRA -- Mas,
  se bem me lembro, houve um dia em que fugiste s teorias de costume; andavas
  ento apaixonado...

TITO --
  Apaixonado  engano. Houve um dia em que a providncia trouxe uma confirmao
  aos meus instantes solitrios. Meti-me a pretender uma senhora...

SEABRA -- 
  verdade: foi um caso engraado.

MARGARIDA --
  Como foi o caso?

SEABRA -- O Tito viu em um
  baile uma rapariga. No dia seguinte apresenta-se em casa dela, e, sem mais nem
  menos, pede-lhe a mo. Ela respondeu... que te respondeu?

TITO -- Respondeu por
  escrito que eu era um tolo e me deixasse daquilo. No disse positivamente tolo,
  mas vinha a dar na mesma.  preciso confessar que semelhante resposta no era
  prpria. Voltei atrs e nunca mais amei.

MARGARIDA --
  Mas amou naquela ocasio?

TITO -- No sei se
  era amor, era uma coisa... Mas note, isto foi h uns bons cinco anos. Da para c
  ningum mais me fez bater o corao.

SEABRA -- Pior
  para ti.

TITO -- Eu sei! Se
  no tenho os gozos intensos do amor, no tenho nem os dissabores nem os
  desenganos.  j uma grande fortuna!

MARGARIDA --
  No verdadeiro amor no h nada disso...

TITO -- No h?
  Deixemos o assunto; eu podia fazer um discurso a propsito, mas prefiro...

SEABRA --
  Ficar conosco? Est sabido.

TITO -- No tenho
  essa inteno.

SEABRA -- Mas
  tenho eu. Hs de ficar.

TITO -- Mas se eu j
  mandei o criado tomar alojamento no hotel de Bragana...

SEABRA -- Pois
  manda contra-ordem. Fica comigo!

TITO -- Insisto em
  no perturbar a tua paz.

SEABRA --
  Deixa-te disso!

MARGARIDA --
  Fique!

TITO -- Ficarei.

MARGARIDA -- E
  amanh depois de ter descansado, h de nos dizer qual  o segredo da iseno de
  que tanto se ufana.

TITO -- No h
  segredo. O que h  isto. Entre um amor que se oferece e... uma partida de
  voltarete, no hesito, atiro-me ao voltarete. A propsito, Ernesto, sabes que
  encontrei no Chile um famoso parceiro de voltarete? Fez a casca mais temerria
  que tenho visto... (a Margarida) Sabe o que  uma casca?

MARGARIDA --
  No.

TITO -- Pois eu lhe
  explico.

SEABRA -- A
  chega a Emlia.

Cena III

Os mesmos, EMLIA
  e o CORONEL

MARGARIDA  (indo ao fundo) -- Viva, Senhora ingrata,
  h trs dias...

EMLIA -- E a
  chuva?

CORONEL --
  Minha Senhora, Sr. Seabra...

SEABRA (a
  Emlia) -- D. Emlia, vem achar-me na maior satisfao. Tornei a ver um
  amigo que h muito andava
  em viagem. Tenho
  a honra de lho apresentar:  o Sr. Tito Freitas.

TITO -- Minha
  Senhora! (Emlia fita-lhe
    os olhos por algum tempo procurando recordar-se; Tito sustenta o
      olhar de Emlia com a mais imperturbvel serenidade)

SEABRA (apresentando)
  -- O Sr. Aleixo Cupidov, coronel do exrcito russo; o Sr. Tito Freitas...
    Bem... (indo  porta da casa) Tragam cadeiras...

EMLIA (a
  Margarida) -- Pois ainda hoje no viria se no fosse a obsequiosidade do Sr.
  Coronel...

MARGARIDA -- O
  Sr. Coronel  uma maravilha. (chega um fmulo com cadeiras, dispe-nas e
    sai)

CORONEL -- Nem
  tanto, nem tanto.

EMLIA -- ,
  . Eu s tenho medo de uma coisa;  que suponham que me acho contratada para
  vivandeira para o exrcito russo...

CORONEL --
  Quem suporia?

SEABRA --
  Sentem-se, nada de cerimnias.

EMLIA --
  Sabem que o Sr. Coronel vai fazer-me um presente?

SEABRA --
  Ah!...

MARGARIDA -- O
  que ?

CORONEL -- 
  uma insignificncia, no vale a pena.

EMLIA --
  Ento no acertam?  um urso branco.

SEABRA e
  MARGARIDA -- Um urso!

EMLIA -- Est
  para chegar; mas s ontem  que me deu notcia...

TITO (baixo a
  Seabra) -- Com ele faz um par.

MARGARIDA --
  Ora, um urso!

CORONEL -- No vale a pena. Contudo mandei dizer que desejava dos mais
  belos. Ah! no fazem idia do que  um urso branco! Imaginem que  todo branco!

TITO -- Ah!...

CORONEL --  um
  animal admirvel.

TITO -- Eu acho que
  sim. (a Seabra) Ora v tu, um urso branco que  todo branco! (baixo) Que
  faz este sujeito?

SEABRA (baixo)
  -- Namora a Emlia, mas sem ser namorado.

TITO (idem) -- Diz
  ela?

SEABRA (idem)
  -- E  verdade.

EMLIA (respondendo
  a Margarida) -- Mas por que no me mandaste dizer? D-se esta, Sr. Seabra;
  ento faz-se anos nesta casa e no me mandam dizer?

MARGARIDA --
  Mas a chuva?

EMLIA -- Anda
  l, maliciosa! Bem sabes que no h chuva em casos tais.

SEABRA --
  Demais fez-se a festa to  capucha!

EMLIA --
  Fosse o que fosse, eu sou de casa.

TITO -- O coronel
  est com licena, no?

CORONEL --
  Estou, sim, senhor.

TITO -- No tem
  saudades do servio?

CORONEL --
  Podia ter, mas h compensaes...

TITO --  verdade que
  os militares, por gosto ou por costume, nas vagas do servio do exrcito,
  alistam-se em outro exrcito, sem baixa de posto, alferes quando so alferes,
  coronis quando so coronis. Tudo lhes corre mais fcil:  o verdadeiro amor;
  o amor que cheira a pelouro e morrio. Oh! esse sim!

CORONEL -- Oh!...

TITO --  verdade,
  no?

CORONEL --
  Faz-se o que se pode...

EMLIA (a Tito) - 
  advogado?

TITO -- No sou coisa
  alguma.

EMLIA --
  Parece advogado.

MARGARIDA --
  Oh! ainda no sabes o que  o nosso amigo... Nem digo, que tenho medo...

EMLIA -- 
  coisa to feia assim?

TITO -- Dizem, mas eu
  no creio.

EMLIA -- O
  que  ento?

MARGARIDA -- 
  um homem incapaz de amar... No pode haver maior indiferena para o amor... Em resumo,
  prefere a um amor... o qu? Um voltarete.

EMLIA --
  Disse-te isso?

TITO -- E repito. Mas
  note bem, no  por elas,  por mim. Acredito que todas as mulheres sejam
  credoras da minha adorao; mas eu  que sou feito de modo que nada mais lhes
  posso conceder do que uma estima desinteressada.

EMLIA -- Se
  no  vaidade,  doena.

TITO -- H de me
  perdoar, mas eu creio que no  doena nem vaidade.  natureza: uns aborrecem
  as laranjas, outros aborrecem os amores; agora se o aborrecimento vem por causa
  das cascas, no sei; o que  certo  que  assim.

EMLIA (a
  Margarida) --  ferino!

TITO --
  Ferino, eu? Sou uma seda, uma dama, um milagre de brandura... Di-me, deveras,
  que eu no possa estar na linha dos outros homens, e no seja, como todos,
  propenso a receber as impresses amorosas, mas que quer? A culpa no  minha.

SEABRA -- Anda
  l, o tempo h de mudar.

TITO -- Mas quando?
  Tenho vinte e nove feitos!

EMLIA -- J,
  vinte e nove?

TITO -- Completei-os
  pela Pscoa.

EMLIA -- No
  parece.

TITO -- So os seus
  bons olhos...

UM CORREIO (ao
  fundo) -- Jornais da corte! (Seabra vai tomar os jornais. Vai-se o
    correio)

SEABRA --
  Notcias do paquete.

CORONEL --
  Notcias do paquete? Faz-me favor de um? (Seabra d-lhe um jornal)

SEABRA --
  Queres ler, Tito?

TITO -- J li. Mas
  olha, deixa-me ir tirar estas botas e mandar chamar o meu criado.

SEABRA --
  Vamos. Dispensam-nos por um instante?

EMLIA -- Pois
  no!

SEABRA --
  Vamos.

TITO -- No tardo
  nada. (entram os dois
    em
      casa. O Coronel
    l as notcias com grandes gestos de espanto)

EMLIA --
  Coronel, ao lado da casa h um caramanchozinho, muito prprio para leitura...

CORONEL --
  Perdo, minha senhora, eu bem sei que fao mal, mas  que realmente o paquete
  trouxe notcias gravssimas.

EMLIA -- No caramancho!
  no caramancho!

CORONEL -- Ho de perdoar, com licena... (a Emlia) No vai sem
  mim?

EMLIA --
  Conto com a sua obsequiosidade.

CORONEL --
  Pois no! (sai)

Cena IV

MARGARIDA,
  EMLIA

MARGARIDA --
  Quando te deixar este eterno namorado?

EMLIA -- Eu
  sei l! Mas, afinal de contas, no  mau homem. Tem aquela mania de me dizer no
  fim de todas as semanas que nutre por mim uma ardente paixo.

MARGARIDA --
  Enfim, se no passa da declarao semanal...

EMLIA -- No
  passa. Tem a vantagem de ser um braceiro infalvel para a rua e um realejo
  menos mau dentro de casa. J me contou umas cinqenta vezes a batalha em que
  ganhou o posto de coronel. Todo o seu desejo, diz ele,  ver-se comigo
  em So Petersburgo.
    Quando
  me fala nisto, se   noite, e  quase sempre  noite,
  mando vir o ch, excelente meio de aplacar-lhe os ardores amorosos. Gosta do
  ch que se pla! Gosta tanto como de mim! Mas aquela do urso branco? E se
  realmente mandou vir um urso?

MARGARIDA --
  Aceita.

EMLIA -- Pois
  eu hei de sustentar um urso? No me faltava mais nada.

MARGARIDA --
  Quer-me parecer que acabas por te apaixonar...

EMLIA -- Por
  quem? Pelo urso?

MARGARIDA --
  No; pelo coronel.

EMLIA --
  Deixa-te disso... Ah! mas o original... o amigo de teu marido? Que me dizes do vaidoso?
  No se apaixona!

MARGARIDA --
  Talvez seja sincero...

EMLIA -- No
  acredito. Pareces criana! Diz aquilo dos dentes para fora...

MARGARIDA --  verdade que no tenho maior conhecimento dele...

EMLIA --
  Quanto a mim, pareceu-me no ser estranha aquela cara... mas no me lembro!

MARGARIDA --
  Parece ser sincero... mas dizer aquilo  j atrevimento.

EMLIA -- Est
  claro...

MARGARIDA --
  De que te ris?

EMLIA --
  Lembra-me um do mesmo gnero que este... Foi j h tempos. Andava sempre a
  gabar-se da sua iseno. Dizia que todas as mulheres eram para ele vasos da
  China: admirava-as e nada mais. Coitado! Caiu em menos de um ms. Margarida,
  vi-o beijar-me a ponta dos sapatos... depois do que desprezei-o.

MARGARIDA --
  Que fizeste?

EMLIA -- Ah!
  no sei o que fiz. Fiz o que todas fazemos. Santa Astcia foi quem operou o
  milagre. Vinguei o sexo e abati um orgulhoso.

MARGARIDA --
  Bem feito!

EMLIA -- No
  era menos do que este. Mas falemos de coisas srias... Recebi as folhas
  francesas de modas...

MARGARIDA -- Que
  h de novo?

EMLIA --
  Muita coisa. Amanh tas mandarei. Repara em um novo corte de mangas. 
  lindssimo. J mandei encomendas para a corte. Em artigos de passeio h fartura
  e do melhor.

MARGARIDA --
  Para mim quase que  intil mandar.

EMLIA -- Por
  qu?

MARGARIDA --
  Quase nunca saio de casa.

EMLIA -- Nem
  ao menos irs jantar comigo no dia de ano bom?

MARGARIDA --
  Oh! com toda a certeza!

EMLIA -- Pois
  vai... Ah! ir o homem? O Sr. Tito?

MARGARIDA --
  Se estiver c... e quiseres...

EMLIA -- Pois
  que v, no faz mal... Saberei cont-lo... Creio que no ser sempre to...
  incivil. Nem sei como podes ficar com esse sangue-frio! A mim faz-me mal aos
  nervos!

MARGARIDA --
  -me indiferente.

EMLIA -- Mas
  a injria ao sexo... no te indigna?

MARGARIDA -- Pouco.

EMLIA -- s
  feliz.

MARGARIDA --
  Que queres que eu faa a um homem que diz aquilo? Se no fosse j casada era
  possvel que me indignasse mais. Se fosse livre era possvel que lhe fizesse o que
  fizeste ao outro. Mas eu no posso cuidar dessas coisas...

EMLIA -- Nem
  ouvindo a preferncia do voltarete? Pr-nos abaixo da dama de copas! E o ar com
  que diz aquilo! Que calma! Que indiferena!

MARGARIDA -- 
  mau!  mau!

EMLIA --
  Merecia castigo...

MARGARIDA --
  Merecia. Queres tu castig-lo?

EMLIA -- No
  vale a pena.

MARGARIDA --
  Mas tu castigaste o outro.

EMLIA --
  Sim... mas no vale a pena.

MARGARIDA --
  Dissimulada!

EMLIA (rindo)
  -- Por que dizes isso?

MARGARIDA --
  Porque j te vejo meio tentada a uma vingana nova...

EMLIA -- Eu? Ora,
  qual!

MARGARIDA --
  Que tem? No  crime...

EMLIA -- No , decerto; mas... Veremos!

MARGARIDA --
  Ah! Sers capaz?

EMLIA (com
  um olhar de orgulho) -- Capaz?

MARGARIDA --
  Beijar-te- ele a ponta dos sapatos?

EMLIA
  (apontando com o leque para o p) -- E ho de ser estes...

MARGARIDA --
  A vem o homem! (Tito aparece  porta da casa)

Cena V

TITO, EMLIA,
  MARGARIDA

TITO  (parando 
  porta) -- No  segredo?

EMLIA --
  Qual! Pode vir.

MARGARIDA -- Descansou
  mais?

TITO -- Pois no!
  Onde est o coronel?

EMLIA -- Est
  lendo as folhas da corte.

TITO -- Coitado do
  coronel!

EMLIA --
  Coitado por qu?

TITO -- Talvez em
  breve tenha de voltar para o exrcito.  duro. Quando a gente se afaz a certos lugares
  e certos hbitos l lhe custa a mudar... Mas a fora maior... No as incomoda o
  fumo?

EMLIA -- No,
  senhor!

TITO -- Ento posso
  continuar a fumar?

MARGARIDA --
  Pode.

TITO --  um mau
  vcio, mas  o meu nico vcio. Quando fumo parece que aspiro a eternidade.
  Enlevo-me todo e mudo de ser. Divina inveno!

EMLIA -- Dizem que  excelente para os desgostos amorosos.

TITO -- Isso
  no sei. Mas no  s isto. Depois da inveno do fumo no h solido possvel.
   a melhor companhia deste mundo. Demais, o charuto  um verdadeiro Memento homo: reduzindo-se
    pouco a pouco em cinzas, vai lembrando ao homem o fim real e infalvel de todas
    as coisas:  o aviso filosfico,  a sentena fnebre que nos acompanha em toda
    a parte. J  um grande progresso... Mas aqui estou eu a aborrec-las com uma
    dissertao aborrecida... Ho de desculpar... que foi descuido. (fixando o
      olhar em Emlia) Ora, a falar a verdade, eu vou desconfiando; V. Exa.
    olha-me com uns olhos to singulares.

EMLIA -- No
  sei se so singulares, mas so os meus.

TITO -- Penso que no
  so os do costume. Est talvez V. Exa. a dizer consigo que eu sou um esquisito,
  um singular, um...

EMLIA -- Um
  vaidoso,  verdade.

TITO -- Stimo
  mandamento: no levantars falsos testemunhos.

EMLIA -- Falsos,
  diz o mandamento.

TITO -- No me dir
  em que sou eu vaidoso?

EMLIA -- Ah!
  a isso no respondo eu.

TITO -- Por
  que no quer?

EMLIA --
  Porque... no sei.  uma coisa que se sente, mas que se no pode descobrir.
  Respira-lhe a vaidade em tudo: no olhar, na palavra, no gesto... mas no se
  atina com a verdadeira origem de tal doena.

TITO -- 
  pena. Eu tinha grande prazer em ouvir da sua boca o diagnstico da minha
  doena. Em compensao pode ouvir da minha o diagnstico da sua... A sua doena
  ... Digo?

EMLIA -- Pode
  dizer.

TITO --  um
  despeitozinho.

EMLIA --
  Deveras?

TITO -- Despeito pelo
  que eu disse h pouco.

EMLIA (rindo)
  -- Puro engano!

TITO --  com
  certeza. Mas  tudo gratuito. Eu no tenho culpa de coisa alguma. A natureza 
  que me fez assim.

EMLIA -- S a
  natureza?

TITO -- E um tanto de
  estudo. Ora, vou desfiar-lhe as minhas razes. Veja se posso amar ou pretender
  amar: 1, no sou bonito...

EMLIA --
  Oh!...

TITO -- Agradeo o
  protesto, mas continuo na mesma opinio: no sou bonito, no sou.

MARGARIDA --
  Oh!

TITO (depois de
  inclinar-se) -- 2, no sou curioso, e o amor, se o reduzirmos s
    suas verdadeiras propores, no passa de uma curiosidade; 3, no sou
    paciente, e nas conquistas amorosas, a pacincia  a principal virtude; 4, finalmente,
    no sou idiota, porque, se com todos estes defeitos, pretendesse amar, caa na
    maior falta de razo. Aqui est o que eu sou por natural e por indstria; veja
    se se pode fazer de mim um Werther...

MARGARIDA --
  Emlia, parece que  sincero.

EMLIA --
  Acreditas?

TITO -- Sincero como
  a verdade.

EMLIA -- Em
  ltimo caso, seja ou no seja sincero, que tenho eu com isso?

TITO -- Ah! Nada! Nada!

EMLIA -- O
  que farei  lamentar aquela que cair na desgraa de pretender to duro
  corao... se alguma houver.

TITO -- Eu creio que
  no h. (entra um criado e vai falar a Margarida)

EMLIA -- Pois
   o mais que posso fazer...

MARGARIDA -- Do-me licena por alguns minutos... Volto j.

EMLIA -- No
  te demores!

MARGARIDA --
  Ficas?

EMLIA -- Fico. Creio que
  no h receio...

TITO -- Ora,
  receio... (Margarida entra em casa, o criado sai pelo fundo)

Cena VI

TITO, EMLIA

EMLIA -- H
  muito tempo que se d com o marido de Margarida?

TITO -- Desde
  criana.

EMLIA -- Ah!
  foi criana?...

TITO -- Ainda hoje sou.

EMLIA (voltando
  ao srio) --  exatamente o tempo das minhas relaes com ela. Nunca me
  arrependi.

TITO -- Nem eu.

EMLIA --
  Houve um tempo em que estivemos separadas; mas isso no trouxe mudana alguma
  s nossas relaes. Foi no tempo do meu primeiro casamento.

TITO -- Ah! foi
  casada duas vezes?

EMLIA -- Em
  dois anos.

TITO -- E por que
  enviuvou da primeira?

EMLIA --
  Porque meu marido morreu.

TITO -- Mas eu
  pergunto outra coisa. Por que se fez viva, mesmo depois da morte de seu
  primeiro marido? Creio que poderia continuar casada.

EMLIA -- De
  que modo?

TITO -- Ficando
  mulher do finado. Se o amor acaba na sepultura acho que no vale a pena de
  procur-lo neste mundo.

EMLIA --
  Realmente o Sr. Tito  um
    esprito fora do comum!

TITO -- Um tanto.

EMLIA -- 
  preciso que o seja para desconhecer que a nossa vida no comporta essas
  exigncias de eterna fidelidade. E demais, pode-se conservar a lembrana dos
  que morreram sem renunciar s condies da nossa existncia. Agora,  que eu
  lhe pergunto por que me olha com olhos to singulares...

TITO -- No sei se
  so singulares, mas so os meus.

EMLIA --
  Ento acha que eu cometi uma bigamia?

TITO -- Eu no acho nada.
  Ora, deixe-me dizer-lhe a ltima razo da minha incapacidade para os amores.

EMLIA -- Sou
  toda ouvidos.

TITO -- Eu no creio
  na fidelidade.

EMLIA -- Em
  absoluto?

TITO -- Em absoluto.

EMLIA --
  Muito obrigada!

TITO - Ah! eu sei que
  isto no  delicado; mas, em primeiro lugar, eu tenho a coragem das minhas
  opinies, e em segundo, foi V. Exa. quem me provocou.  infelizmente verdade,
  eu no creio nos amores leais e eternos. Quero faz-la minha confidente. Houve
  um dia em que tentei amar; concentrei todas as formas vivas do meu corao;
  dispus-me a reunir o meu orgulho e a minha iluso na cabea do objeto amado.
  Que lio mestra! O objeto amado, depois de me alimentar as esperanas,
  casou-se com outro que no era nem mais bonito, nem mais amante.

EMLIA -- Que
  prova isso?

TITO -- Prova que me
  aconteceu o que pode acontecer e acontece diariamente aos outros.

EMLIA -- Ora...

TITO -- H de
  me perdoar, mas eu creio que  uma coisa j metida na massa do sangue.

EMLIA -- No
  diga isso.  certo que podem acontecer casos desses; mas sero todas assim? No
  admite uma exceo que seja? Seja menos prevenido; aprofunde mais os coraes
  alheios se quiser encontrar a verdade... e h de encontr-la.

TITO (abanando
  a cabea) -- Qual...

EMLIA -- Posso
  afirm-lo.

TITO -- Duvido.

EMLIA (dando-lhe
  o brao) -- Tenho pena de uma criatura assim! No conhecer o amor  no
  conhecer a felicidade,  no conhecer a vida! H nada igual  unio de duas
  almas que se adoram? Desde que o amor entra no corao, tudo se transforma,
  tudo muda, a noite parece dia, a dor assemelha-se ao prazer... Se no conhece
  nada disto, pode morrer, porque  o mais infeliz dos homens.

TITO -- Tenho
  lido isso nos livros, mas ainda no me convenci...

EMLIA -- H
  de ir um dia  minha casa.

TITO --  dado saber
  por qu?

EMLIA -- Para ver uma
  gravura que l tenho na sala: representa o amor domando as feras. Quero
  convenc-lo.

TITO -- Com a opinio
  do desenhista? No  possvel. Tenho visto gravuras vivas. Tenho servido de
  alvo a muitas setas; crivam-me todo, mas eu tenho a fortaleza de So Sebastio;
  afronto, no me curvo.

EMLIA (tira-lhe
  o brao) -- Que orgulho!

TITO -- O que pode
  fazer dobrar uma altivez destas? A beleza? Nem Clepatra. A castidade? Nem Susana. Resuma, se
    quiser, todas as qualidades em uma s criatura e eu no mudarei...  isto e
    nada mais.

EMLIA (
  parte) -- Veremos. (vai sentar-se)

TITO (sentando-se)
  - Mas, no me
    dir; que interesse tem na minha converso?

EMLIA  Eu? No sei... nenhum.

TITO (pega no
  livro) -- Ah!

EMLIA -- S se fosse o
  interesse de salvar-lhe a alma...

TITO (folheando o
  livro) -- Oh! essa... est salva!

EMLIA (depois
  de uma pausa) -- Est admirando a beleza dos versos?

TITO -- No
  senhora; estou admirando a beleza da impresso. J se imprime bem no Rio de
  Janeiro. Aqui h anos era uma desgraa. V. Exa. h de conservar ainda alguns
  livros da impresso antiga...

EMLIA -- No,
  senhor; eu nasci depois que se comeou a imprimir bem.

TITO (com a maior
  frieza) -- Ah! (deixa o livro)

EMLIA ( parte) -- 
  terrvel! (alto, indo ao fundo) Aquele coronel ainda no acabaria de ler
  as notcias?

TITO -- O
  coronel?

EMLIA -- Parece que se
  embebeu todo no jornal... Vou mandar cham-lo... No chegar algum?

TITO (com os olhos
  cerrados) -- Mande, mande...

EMLIA (consigo)
  -- No, tu  que hs de ir. (alto) Quem me chamar o coronel? (
    parte) No se move!... (indo por trs da cadeira de Tito) Em que
      medita? No amor? Sonha com os anjos? (ameigando a voz) A vida do amor 
      a vida dos anjos...  a vida do cu... (vendo-o com os olhos, fechados) Dorme!...
      Dorme!...

TITO (despertando,
  com espanto) -- Dorme?... Quem? Eu?... Ah! o cansao... (levanta-se) Desculpe...  o cansao... cochilei... tambm Homero cochilava... Que h?

EMLIA (sria) -- No h nada! (vai para o fundo)

TITO ( parte) -- Sim? (alto) Mas no me dir?... (dirige-se para o fundo. Entra o coronel)

Cena VII

Os mesmos, CORONEL

CORONEL (com
  a folha na mo) -- Estou acerbo!

EMLIA (com
  muito agrado e solicitude) -- Que aconteceu?

CORONEL -- Vou
  naturalmente para a Europa.

TITO -- Morreu
  o urso no caminho?

CORONEL --
  Qual urso, nem meio urso! Rebentou uma revoluo na Polnia!

EMLIA --
  Ah!...

TITO -- L vai o
  coronel brilhar...

CORONEL --
  Qual brilhar!... (consigo) Esta s pelo diabo...

Cena VIII

Os mesmos, SEABRA,
  MARGARIDA

MARGARIDA (a
  Emlia) -- Que  isso? (vendo-a preparar-se) Que  isso? J te vais?

EMLIA -- J,
  mas volto amanh.

MARGARIDA -- 
  srio?

EMLIA --
  Muito srio.

TITO (a Seabra) -- A tal
  viagem da serra ps-me entrompado. Ando dormindo em p.

CORONEL (a
  Margarida) -- At amanh.

MARGARIDA -- Que ar triste  esse?

CORONEL --
  Fortunas minhas!

EMLIA (a
  Margarida) -- Temos muito que conversar. At amanh. (beijam-se. O
    coronel despede-se dos outros. Emlia despede-se de Seabra e de Tito, mas com certa
      frieza)

Cena IX

MARGARIDA,
  SEABRA, TITO

MARGARIDA --
  Emlia sai amuada. (a Tito) Que foi?

TITO -- No
  sei... ela  boa senhora; um pouco secantezinha... muito dada  poesia...
  ora eu sou todo da prosa... (batendo no estmago) H prosa?

SEABRA --
  Ainda no jantaste? Anda jantar...

TITO -- Vamos 
  prosa, vamos  prosa!

ATO SEGUNDO

(Sala em casa
  de Emlia.)

Cena I

MARGARIDA,
  CORONEL

MARGARIDA --
  Ora viva!

CORONEL (triste)
  -- Bom dia, minha senhora!

MARGARIDA --
  Que ar triste  esse?

CORONEL -- Ah!
  minha senhora... sou o mais infeliz dos homens...

MARGARIDA -- Por qu? Venha sentar-se... (o coronel senta-se) Ento,
  conte-me... Que h?

CORONEL --
  Duas desgraas. A primeira em forma de ofcio da minha legao.

MARGARIDA -- 
  chamado ao exrcito?

CORONEL --
  Exatamente. A segunda em forma de carta.

MARGARIDA --
  De carta?

CORONEL (dando-lhe
  uma carta) -- Veja isto. (Margarida l e d-lha de novo) Que me diz a
  isto?

MARGARIDA --
  No compreendo...

CORONEL --
  Esta carta  dela.

MARGARIDA --
  Sim, e depois?

CORONEL
  --   para ele.

MARGARIDA --
  Ele quem?

CORONEL --
  Ele! o diabo! o meu rival! o Tito!

  MARGARIDA -- Ah!

CORONEL -- Dizer-lhe
  o que senti quando apanhei esta carta  impossvel. Nunca tremi nem mesmo na
  Crimia, e olhe que estava feio! Mas quando li isto no sei que vertigem se
  apoderou de mim. Fez-me o efeito de um ucasse de desterro para a Sibria. Ah! a
  Sibria  um paraso  vista de Petrpolis neste momento. Ando tonto! A cada
  passo como que desmaio... Ah!...

MARGARIDA --
  nimo!

CORONEL -- 
  isto mesmo que eu vinha buscar...  uma consolao, uma animao. Soube que
  estava aqui e estimei ach-la s... Ah! quanto sinto que o estimvel seu marido
  esteja vivo... porque a melhor consolao era aceitar V. Exa. um corao to
  mal compreendido.

MARGARIDA --
  Felizmente ele est vivo.

CORONEL -- Felizmente! (mudando o tom) Tive duas idias. Uma foi o
  desprezo; mas desprez-los  p-los em maior liberdade e ralar-me de dor e de
  vergonha; a segunda foi o duelo;  melhor... ou mato... ou...

MARGARIDA --
  Deixe-se isso.

CORONEL -- 
  indispensvel que um de ns seja riscado do nmero dos vivos...

MARGARIDA --
  Pode ser engano...

CORONEL -- Mas
  no  engano,  certeza.

MARGARIDA --
  Certeza de qu?

CORONEL -- Ora
  oua: (l o bilhete) 'Se ainda no me compreendeu  bem curto de
  penetrao. Tire a mscara e eu me explicarei. Esta noite tomo ch sozinha. O
  importuno coronel no me incomodar com as suas tolices. D-me a felicidade de
  v-lo e admir-lo. Emlia.'

MARGARIDA --
  Mas que  isto?

CORONEL -- Que
   isto? Ah! se fosse mais do que isto j eu estava morto! Pude pilhar a carta e
  a tal entrevista no se deu...

MARGARIDA --
  Quando foi escrita a carta?

CORONEL --
  Ontem.

MARGARIDA --
  Tranqilize-se: posso afirmar-lhe que essa carta  pura caoada. Trata-se de
  vingar o nosso sexo ultrajado; trata-se de fazer com que o Tito se
    apaixone... nada mais.

CORONEL --
  Sim?

MARGARIDA -- 
  pura verdade. Mas veja l. Isto  segredo. Se lho descobri foi por v-lo to
  aflito. No nos comprometa.

CORONEL --
  Isso  srio?

MARGARIDA --
  Como quer que lho diga?

CORONEL -- Ah!
  que peso me tirou! Pode estar certa de que o segredo caiu num poo. Oh! muito
  me hei de rir!... muito me hei de rir!... Que boa inspirao tive em vir
  falar-lhe! Diga-me: posso dizer  D. Emlia que sei tudo?

MARGARIDA --
  No!

CORONEL -- 
  ento melhor que no me d por achado...

MARGARIDA --
  Sim.

CORONEL --
  Muito bem!

Cena II

Os mesmos, TITO

TITO -- Bom dia, D.
  Margarida... Sr. Coronel... (a Margarida) Sabe que acordei no h uma
  hora? Disseram-me que tinham sado a visitar D. Emlia. Almocei e aqui estou.

MARGARIDA --
  Dormiu bem?

TITO -- Como um
  justo. Tive sonhos cor-de-rosa: sonhei com o coronel...

CORONEL (mofando)
  -- Ah! Sonhou comigo?... ( parte) Coitado! Tenho pena dele!

MARGARIDA --
  Sabe que o Sr. meu marido anda de passeio?

TITO -- Sim? (vai
   janela) E a manh
  est bonita! Manh? J no  muito cedo... Jantam c?

MARGARIDA --
  No sei. Tenho duas visitas para fazer: uma, com Emlia, outra, com Ernesto.

CORONEL (a Tito) -- Ento
  vai engordando?

TITO -- Acha?

CORONEL --
  Pois no! Eu creio que  do amor...

TITO -- Do amor? 
  coronel, est sonhando?

CORONEL (misterioso) Talvez... talvez... ( parte) Tu  que ests sonhando.

MARGARIDA -- Eu vou ver se Emlia est pronta.

TITO -- Pois no...
  Ah! ela est boa?

MARGARIDA --
  Est. At j. (baixo ao coronel) Silncio.

Cena III

CORONEL, TITO

TITO -- Como vo os
  seus amores?

CORONEL -- Que
  amores?

TITO -- Os seus, a
  Emlia... J lhe fez compreender toda a imensidade da paixo que o devora?

CORONEL (ar
  mofado) -- Qual... Preciso de algumas lies... Se mas quisesse dar?...

TITO -- Eu? Est
  sonhando!

CORONEL -- Ah!
  eu sei que o senhor  forte...  modesto, mas  forte...  at fortssimo!...
  Ora, eu sou realmente um aprendiz... Tive h pouco a idia de desafi-lo.

TITO -- A mim?

CORONEL -- 
  verdade, mas foi uma loucura de que me arrependo.

TITO -- Alm de que,
  no  uso em nosso pas...

CORONEL -- Em
  toda a parte  uso vingar a honra.

TITO -- Bravo,
  D. Quixote!

CORONEL --
  Ora, eu acreditava-me ofendido na honra.

TITO -- Por mim?

CORONEL -- Mas
  emendei a mo; reparei que era antes eu quem ofendia, pretendendo lutar com um
  mestre, eu, simples aprendiz...

TITO -- Mestre
  de qu?

CORONEL -- Dos
  amores. Oh! eu sei que  mestre...

TITO -- Deixe-se
  disso... eu no sou nada... O coronel, sim; o coronel vale um urso, vale mesmo dois.
  Como havia de eu... Ora! Aposto que teve cimes?

CORONEL --
  Exatamente.

TITO -- Mas era
  preciso no me conhecer, no saber das minhas idias...

CORONEL --
  Homem, s vezes  pior.

TITO -- Pior, como?

CORONEL -- As
  mulheres no deixam uma afronta sem castigo... As suas idias so afrontosas...
  Qual ser o castigo?... (depois de uma pausa) Paro aqui... paro aqui...

TITO -- Onde vai?

CORONEL -- Vou
  sair. Adeus. No se lembre mais da minha desastrada idia do duelo...

TITO -- Isso
  est acabado... Ah! voc escapou de boa!

CORONEL -- De
  qu?

TITO -- De morrer. Eu
  enfiava-lhe a espada por esse abmen... com um gosto... com um gosto s
  comparvel ao que tenho de abra-lo vivo e so!

CORONEL (com
  um riso amarelo) -- Obrigado, obrigado. At logo!

TITO -- No se despede
  dela?

CORONEL -- Eu
  volto j...

Cena IV

TITO (s) -- Este coronel no tem nada
  de original... Aquela opinio a respeito das mulheres no  dele...Melhor,
  vai-se confirmando... Nem me so precisas novas confirmaes...
    J sei tudo... Ah! minha conquistadora!... A vm as duas...

Cena V

TITO, MARGARIDA,
  EMLIA

EMLIA -- Bons
  olhos o vejam...

TITO -- Bons e
  bonitos...

MARGARIDA --
  Vamos  nossa visita.

TITO -- Ah!...

EMLIA -- A
  demora  pouca... Pode esperar-nos...

TITO --
  Obrigado... Esperarei... Tenho a janela para olh-las at perd-las de vista...
  Depois tenho estes lbuns, estes livros...

EMLIA (ao
  espelho) -- Tem o espelho para se mirar...

TITO -- Oh! isso 
  completamente intil para mim!

Cena VI

Os mesmos, SEABRA

SEABRA (a Tito) -- Oh!
  Finalmente acordaste!

TITO --  verdade...
  No me lembro de ter passado nunca to belas noites como estas de Petrpolis.
  J nem tenho pesadelos... Pois olha, eu era vtima... Agora no, durmo como um
  justo...

SEABRA (s
  duas) -- Esto de volta?

MARGARIDA --
  Ainda agora vamos!

SEABRA --
  Ento tenho ainda de esperar?...

EMLIA -- Um
  simples quarto de hora...

SEABRA -- S?

TITO -- Um quarto de
  hora feminino... meia eternidade...

EMLIA -- Vamos desmenti-lo...

TITO -- Ah! Tanto
  melhor...

MARGARIDA --
  At j... (saem as duas)

Cena VII

TITO, SEABRA

SEABRA -- Ora,
  esperemos ainda...

TITO -- Onde foste?

SEABRA -- Fui
  passear... Compreendi que  preciso ver e admirar o que  indiferente, para
  apreciar e ver melhor aquilo que for a felicidade ntima do corao.

TITO -- Ali! Sim? Bem
  vs que at a felicidade por igual fatiga! Afinal sempre a razo est do meu
  lado...

SEABRA --
  Talvez... Apesar de tudo quer-me parecer que j intentas entrar na famlia dos
  casados.

TITO -- Eu?

SEABRA -- Tu,
  sim.

TITO -- Por qu?

SEABRA -- Mas,
  dize;  ou no verdade?

TITO -- Qual,
  verdade!

SEABRA -- O
  que sei  que uma destas tardes, em que adormeceste lendo, no sei que livro,
  ouvi-te pronunciar em sonhos, com a maior ternura, o nome de Emlia.

TITO -- Deveras?

SEABRA -- 
  exato. Conclu que se sonhavas com ela  que a tinhas no pensamento, e se a
  tinhas no pensamento  que a amavas.

TITO --
  Concluste mal.

SEABRA -- Mal?

TITO -- Concluste
  como um marido de cinco meses. Que prova um sonho?

SEABRA --
  Prova muito!

TITO -- No prova
  nada! Pareces velha supersticiosa...

SEABRA -- Mas
  enfim alguma coisa h, por fora... Sers capaz de me dizeres o que ?

TITO -- Homem, podia dizer-te alguma coisa se no fosses casado...

SEABRA -- Que tem
  que eu seja casado?

TITO -- Tem tudo.
  Serias indiscreto sem querer e at sem saber.  noite, entre um beijo e um
  bocejo, o marido e a mulher abrem, um para o outro, a bolsa das confidncias.
  Sem pensares, deitavas tudo a perder.

SEABRA -- No
  digas isso. Vamos l. H novidade?

TITO -- No h nada.

SEABRA --
  Confirmas as minhas suspeitas. Gostas de Emlia.

TITO -- dio
  no lhe tenho,  verdade.

SEABRA --
  Gostas. E ela merece.  uma boa senhora, de no vulgar beleza, possuindo as
  melhores qualidades. Talvez preferisses que no fosse viva?...

TITO -- Sim; 
  natural que se embevea dez vezes por dia na lembrana dos dois maridos que j
  exportou para o outro mundo...  espera de exportar o terceiro.

SEABRA -- No
   dessas...

TITO --
  Afianas?

SEABRA --
  Quase que posso afianar.

TITO -- Ah! meu
  amigo, toma o conselho de um tolo: nunca afiances nada, principalmente em tais
  assuntos. Entre a prudncia discreta e a cuja confiana no  lcito duvidar, a
  escolha est decidida nos prprios termos da primeira. O que podes tu afianar
  a respeito
    da Emlia? No a conheces melhor do que eu. H quinze dias que nos conhecemos e
    eu j lhe leio no interior; estou longe de atribuir-lhe maus sentimentos; mas,
    tenho a certeza de que no possui as rarssimas qualidades que so necessrias
     exceo. Que sabes tu?

SEABRA --
  Realmente, eu no sei nada.

TITO ( parte) -- No
  sabe nada!

SEABRA -- Falo
  pelas minhas impresses. Parecia-me que um casamento entre vocs ambos no
  vinha fora de propsito.

TITO (pondo
  o chapu) -- Se me falas outra vez em casamento, saio.

SEABRA -- Pois
  s a palavra?...

TITO -- A palavra, a
  idia, tudo.

SEABRA --
  Entretanto admiras e aplaudes o meu casamento...

TITO -- Ah! eu
  aplaudo nos outros muita coisa de que no sou capaz de usar... Depende da
  vocao...

Cena VIII

Os mesmos, MARGARIDA,
  EMLIA

EMLIA -- O
  que  que depende de vocao?

TITO -- Usar
  chapu do Chile. Eu diria que este gnero de chapus fica muito bem em Ernesto,
  mas que eu no sou capaz de us-lo; porque... porque depende da vocao. No
  pensa comigo que contra a vocao no h nada capaz?

EMLIA --
  Plenamente.

TITO (a Seabra) -- Toma
  l!...

SEABRA (
  parte a Tito)
    -- Velhaco!... (alto a Margarida) Margarida, vamos
      embora?

MARGARIDA --
  J para casa?

SEABRA -- Vamos primeiro ao tio e depois para casa.

EMLIA -- Sem
  passarem por aqui na volta?

MARGARIDA --
  Ele  quem manda.

SEABRA -- Se
  no for muito o cansao...

EMLIA -- Ora,
  o dia est fresco e sombrio;  perto, e o caminho  excelente. Se no me
  baterem  porta ficamos mal para sempre.

SEABRA -- Ah!
  isto no... (a Tito) Tambm vens?

TITO (de chapu na
  mo) -- Tambm.

EMLIA -- E
  assim me deixa s?

TITO -- Tem muito
  empenho em que eu fique?

EMLIA -- Agrada-me
  a sua conversa.

TITO -- Fico.
  At logo.

Cena IX

TITO, EMLIA

TITO -- V. Exa. disse
  agora uma falsidade.

EMLIA -- Qual
  foi?

TITO -- Disse que lhe
  era agradvel a minha conversa. Ora, isso  falso como tudo quanto  falso...

EMLIA -- Quer
  um elogio?

TITO -- No, falo
  franco. Eu nem sei como V. Exa. me atura: desabrido, maante, s vezes
  chocarreiro, sem f em coisa alguma, sou um conversador muito pouco digno de
  ser desejado.  preciso ter uma grande soma de bondade para ter expresses to
  benvolas... to amigas...

EMLIA --
  Deixe esse ar de mofa e...

TITO -- Mofa, minha senhora?...

EMLIA -- Ontem tomei ch sozinha!... sozinha!

TITO (indiferente)
  -- Ah!

EMLIA --
  Contava que o senhor viesse aborrecer-se urna hora comigo...

TITO -- Qual, aborrecer...
  Eu lhe digo: o culpado foi o Ernesto.

EMLIA -- Ah!
  foi ele?...

TITO -- 
  verdade; deu comigo a em casa de uns amigos, ramos quatro ao todo, rolou a
  conversa sobre o voltarete e acabamos por formar mesa. Ah! mas foi uma noite completa!
  Aconteceu-me o que me acontece sempre: ganhei!

EMLIA (triste)
  -- Est bom...

TITO -- Pois olhe,
  ainda assim eu no jogava com pixotes; eram mestres de primeira fora; um
  principiante; at s onze horas a fortuna pareceu desfavorecer-me, mas dessa
  hora em diante desandou a roda para eles e eu comecei a assombrar... pode ficar
  certa de que os assombrei. (Emlia leva o leno aos olhos) Ah!  que eu
  tenho diploma... mas que  isso? Est chorando?

EMLIA (tirando
  o leno e sorrindo )- Qual; pode continuar.

TITO -- No h mais
  nada; foi s isto.

EMLIA --
  Estimo que a noite lhe corresse feliz...

TITO -- Alguma
  coisa...

EMLIA -- Mas,
  a uma carta responde-se; por que no respondeu  minha?

TITO --  sua qual?

EMLIA --  carta
  que lhe escrevi pedindo que viesse tomar ch comigo?

TITO -- No me
  lembro.

EMLIA -- No se lembra?

TITO -- Ou, se
  recebi essa carta, foi em ocasio que a no pude ler, e ento esqueci-a em
  algum lugar...

EMLIA -- 
  possvel; mas  a ltima vez...

TITO -- No me
  convida mais para tomar ch?

EMLIA -- No.
  Pode arriscar-se a perder distraes melhores.

TITO -- Isso
  no digo; V. Exa. trata bem a gente e em sua casa passam-se bem
    as horas... Isto  com franqueza. Mas ento tomou ch sozinha? E o coronel?

EMLIA --
  Descartei-me dele. Acha que ele seja divertido?

TITO -- Parece que
  sim...  um homem delicado; um tanto dado s paixes,  verdade, mas sendo esse
  um defeito comum, acho que nele no  muito digno de censura.

EMLIA -- O
  coronel est vingado.

TITO -- De qu, minha
  senhora?

EMLIA (depois
  de uma pausa) -- De nada! (levanta-se e dirige-se ao piano)

TITO (com ar
  indiferente) -- Ah!

EMLIA -- Vou tocar;
  no aborrece?

TITO -- V. Exa. 
  senhora de sua casa...

EMLIA -- No
   essa a resposta.

TITO -- No aborrece,
  no... pode tocar. (Emlia comea algum pedao musical melanclico) V. Exa.
    no toca alguma coisa mais alegre?

EMLIA (parando) -- No...
  traduzo a minha alma. (levanta-se)

TITO -- Anda triste?

EMLIA -- Que lhe
  importam as minhas tristezas?

TITO -- Tem razo;
  no importam nada. Em todo o caso no  comigo?

EMLIA -- Acha
  que lhe hei de perdoar a desfeita que me fez?

TITO -- Qual
  desfeita, minha senhora?

EMLIA -- A
  desfeita de me deixar tomar ch sozinha.

TITO -- Mas eu j
  expliquei...

EMLIA --
  Pacincia! O que sinto  que tambm nesse voltarete estivesse o marido de
  Margarida.

TITO -- Ele
  retirou-se s dez horas; entrou um parceiro novo, que no era de todo mau...

EMLIA --
  Pobre Margarida!

TITO -- Mas se
  eu lhe digo que ele se retirou s dez horas...

EMLIA -- No
  devia ter ido. Devia pertencer sempre a sua mulher. Sei que estou falando a um
  descrido; no pode calcular a felicidade e os deveres do lar domstico. Viverem
  duas criaturas, uma para a outra, confundidas, unificadas; pensar, aspirar,
  sonhar a mesma coisa; limitar o horizonte nos olhos de cada uma, sem outra
  ambio, sem inveja de mais nada. Sabe o que  isto?

TITO -- Sei.  o
  casamento... por fora.

EMLIA --
  Conheo algum que lhe provava aquilo tudo...

TITO -- Deveras? Quem
   essa fnix?

EMLIA -- Se
  lho disser, h de mofar; no digo.

TITO -- Qual mofar!
  Diga l, eu sou curioso.

EMLIA (sria)
  -- No acredita que haja algum que o ame?

TITO -- Pode ser...

EMLIA -- No
  acredita que algum, por curiosidade, por despeito, por outra coisa que seja, tire da
    originalidade do seu esprito os influxos de um amor verdadeiro, mui diverso do
    amor ordinrio dos sales; um amor capaz de sacrifcio, capaz de tudo? No
    acredita?

TITO -- Se me afirma,
  acredito; mas...

EMLIA -- Existe
  a pessoa e o amor.

TITO -- So ento
  duas fnix.

EMLIA -- No
  zombe. Existem... Procure...

TITO -- Ah! isso h
  de ser mais difcil: no tenho tempo. E supondo que achasse de que me valia?
  Para mim  perfeitamente intil. Isso  bom para outros; para o coronel, por
  exemplo... Por que no diz isso ao coronel?

EMLIA -- Ao
  coronel? (silncio) Adeus, Sr. Tito, desculpe, eu me retiro...

TITO -- Adeus, minha
  senhora. (dirige-se para o fundo. Emlia vai a
    sair pela direita alta, pra)

EMLIA -- No
  v!

TITO -- Que no v?

EMLIA (prorrogando)
  -- No v que o amo? No v que sou eu?...

TITO -- V. Exa.?

EMLIA -- Eu,
  sim! Debalde procuraria ocult-lo... fora impossvel. No cuidei nunca que
  viesse a am-lo assim... E olhe, deve ser muito, para que uma mulher seja a
  primeira a revelar... Pode acaso calcul-lo?

TITO -- Deve ser
  muito, deve... mas a minha situao  difcil: que lhe hei de responder?

EMLIA -- O
  que quiser; no me responda nada, se lhe parece: mas no repila, lamente-me
  antes.

TITO -- Nem lamento,
  nem repilo. Respondo... depois responderei. Entretanto, acalme os seus
  transportes e consinta que eu me retire...

EMLIA -- Ah!
  vejo que no me ama.

TITO -- No  culpa
  minha... Mas que  isso, minha senhora? Acalme-se... eu vou sair... a prolongao
  desta cena seria sobremodo desagradvel e inconveniente. Adeus!

Cena X

EMLIA, s,
  depois MARGARIDA

EMLIA --
  Saiu!  verdade! No me ama... no me pode amar... (silncio) Fui talvez
  imprudente! Mas o corao... oh! meu corao!

MARGARIDA (entrando)
  -- Que tem o Tito que
    me tirou o Ernesto do brao e l saiu com ele?

EMLIA --
  Saram ambos?

MARGARIDA (indo
   janela) -- Olha, l vo eles...

EMLIA (idem)
  --  verdade.

MARGARIDA -- O Tito tira
  um papel do bolso e mostra a Ernesto.

EMLIA (olhando)
  -- Que ser?

MARGARIDA --
  Mas que aconteceu?

EMLIA --
  Aconteceu o que no prevamos...

MARGARIDA -- 
  invencvel?

EMLIA -- Por
  desgraa minha; mas h coisa pior...

MARGARIDA --
  Pior?...

EMLIA -- Escuta;
  s quase minha irm; no te posso ocultar nada.

MARGARIDA --
  Que ar agitado!

EMLIA --
  Margarida, eu o amo!

MARGARIDA --
  Que me dizes?

EMLIA -- Isto mesmo. Amo-o doidamente, perdidamente, completamente.
  Procurei at agora vencer esta paixo, mas no pude; agora mesmo que, por vos
  preconceitos, tratava de ocultar-lhe o estado do meu corao, no pude; as
  palavras saram-me dos lbios insensivelmente... Declarei-lhe tudo...

MARGARIDA --
  Mas como se deu isto?

EMLIA -- Eu
  sei! Parece que foi castigo. Quis fazer fogo e queimei-me nas mesmas chamas.
  Ah! no  de hoje que me sinto assim. Desde que os seus desdns em nada
  cederam, comecei a sentir no sei o qu; ao princpio despeito, depois um
  desejo de triunfar, depois uma ambio de ceder tudo contanto que tudo
  ganhasse; afinal, nem fui senhora de mim. Era eu quem me sentia doidamente
  apaixonada e lho manifestava, por gestos, por palavras, por tudo; e mais
  crescia nele a indiferena, mais crescia o amor
  em mim. Hoje
  no pude,
  declarei-me.

MARGARIDA -- Mas
  ests falando sria?

EMLIA -- Olha
  antes para mim.

MARGARIDA --
  Pois ser possvel? Quem pensara?...

EMLIA -- A
  mim prpria parece impossvel; mas  mais que verdade...

MARGARIDA -- E
  ele?

EMLIA -- Ele disse-me
  quatro palavras indiferentes, nem sei o que foi, e retirou-se...

MARGARIDA --
  Resistir?

EMLIA -- No
  sei.

MARGARIDA --
  Se eu adivinhara isto no te animaria naquela malfadada idia.

EMLIA -- No
  me compreendeste. Cuidas que eu deploro o que me acontece? Oh! no! Sinto-me
  feliz, sinto-me orgulhosa...  um destes amores que bastam por si para encher a
  alma de satisfao. Devo antes abenoar-te...

MARGARIDA -- 
  uma verdadeira paixo... Mas acreditas impossvel a converso dele?

EMLIA -- No sei; mas seja ou no impossvel, no  a converso que eu
  peo; basta-me que seja menos indiferente e mais compassivo.

Cena XI

As mesmas, TITO

TITO -- Deixei o
  Ernesto l fora para que no oua o que se vai passar...

MARGARIDA -- O
  que  que se vai passar?

TITO -- Uma coisa
  simples.

MARGARIDA --
  Mas, antes de tudo, no sei se sabe que uma indiferena to completa como a sua
  pode ser fatal a quem  por natureza menos indiferente?

TITO -- Refere-se 
  sua amiga? Eu corto tudo com duas palavras. (a Emlia) Aceita a
    minha mo? (estende-lhe a mo)

EMLIA (alegremente)
  -- Oh! sim! (d-lhe a mo)

MARGARIDA --
  Bravo!

TITO -- Mas  preciso
  medir toda a minha generosidade; eu devia dizer: aceito a sua mo. Devia ou no
  devia? Sou um tanto original e gosto de fazer inverso em tudo.

EMLIA -- Pois
  sim; mas de um ou outro modo sou feliz. Contudo, um remorso me surge na
  conscincia. Dou-lhe uma felicidade to completa como a recebo?

TITO -- Remorso, se  sujeita aos remorsos, deve ter um, mas por motivo
  diverso. Minha senhora, V. Exa. est passando neste momento pelas forcas
  caudinas. (a Margarida) Vou contar-lhe, minha senhora, uma curiosa
  histria. (a Emlia) Fi-la sofrer, no? Ouvindo o que vou dizer concordar que
    eu j antes sofria e muito mais.

MARGARIDA --
  Temos romance?

TITO -- Realidade,
  minha senhora, e realidade
  em
    prosa. Um
  dia, h j alguns anos, tive eu a felicidade de ver
  uma senhora, e amei-a. O amor foi tanto mais indomvel quanto que me nasceu de
  sbito. Era ento mais ardente que hoje, no conhecia muito os usos do mundo.
  Resolvi declarar-lhe a minha paixo e pedi-la
  em casamento. Tive
  em
  resposta este bilhete...

EMLIA (detendo-o)
  -- Percebo. Essa senhora fui eu. Estou humilhada; perdo!

TITO -- Meu amor a perdoa;
  nunca deixei de am-la. Eu estava certo de encontr-la um dia, e procedi de
  modo a fazer-me o desejado. Sou mais generoso...

MARGARIDA --
  Escreva isto e diro que  um romance.

TITO -- A vida no 
  outra coisa...

MARGARIDA --
  Agora d-me conta do meu marido.

TITO -- No pode
  tardar; dei-lhe um prazo para vir. Olhe, creio que  ele...

EMLIA -- E o
  coronel tambm.

Cena XII

Os mesmos, CORONEL e SEABRA

SEABRA (da
  porta) --  lcito o ingresso?

TITO -- Entra,
  entra...

EMLIA -- Vai
  saber de boas novidades...

SEABRA -- Sim?

MARGARIDA (baixo)
  -- Casam-se

SEABRA (idem)
  -- J sabia.

MARGARIDA (baixo)
  -- Era um plano da parte dele.

SEABRA (idem)
  -- J sabia. Ele me disse tudo.

EMLIA -- O
  que eu desejo  que jantem comigo.

SEABRA -- Pois
  no.

CORONEL -- Tenho estado  espera de dar uma boa notcia. Recebi uma carta
  que me d parte de que o urso est na alfndega.

EMLIA -- Pois
  v fazer-lhe companhia.

CORONEL -- O
  qu?

TITO -- D. Emlia s
  precisa agora de um urso: sou eu.

CORONEL -- No
  percebo...

EMLIA --
  Apresento-lhe o meu futuro marido.

CORONEL (espantado)
  -- Ah!... (caindo em si) Bom!... bom!... marido? J sei... (
    parte) Que pateta! No compreende...

EMLIA -- O
  que ?

MARGARIDA (baixo)
  -- Cala-te; eu tinha-lhe contado o teu plano; o pobre homem acredita nele.

EMLIA --
  Ah!...

SEABRA --
  Afinal, sentas praa nas minhas fileiras.

TITO (tomando a
  mo de Emlia) -- Ah! mas no posto de coronel!

(Fim
  da comdia.)
